Combater o avanço da semiaridez no Cerrado passa pela garantia dos direitos territoriais
6 ago 2026
Participação da Rede Cerrado na Caatinga Climate Week reforça a articulação entre Cerrado e Caatinga e a defesa dos povos e comunidades tradicionais como estratégia para enfrentar a crise climática

Caatinga Climate Week reuniu povos também de outros biomas, como Cerrado e Mata Atlântica. Foto: Thalys, The Creator | Caatinga Climate Week

“Sou Xavante do Cerrado, mas na Rede eu também me sinto quilombola, comunidade tradicional, agricultor… somos povos unidos defendendo o meio ambiente e o nosso modo de viver. E eu vi tudo isso aqui: a Caatinga como identidade, e isso me tocou de verdade. Cerrado e Caatinga têm que andar de mãos dadas, um aprendendo com o outro.”

Foi assim que Hiparidi Toptiro, liderança do povo Xavante e coordenador-geral da Rede Cerrado, resumiu a experiência da organização durante a Caatinga Climate Week, realizada no início de julho, em Recife (PE), pelo Instituto Socioambiental (ISA) e pelo Centro Sabiá.

O encontro integra a preparação para a 17ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17/UNCCD), da qual a Rede Cerrado também participará. A organização levará ao debate internacional uma mensagem central: enfrentar o avanço da semiaridez no Cerrado depende da garantia dos direitos territoriais dos povos e comunidades tradicionais.

Coordenador da Rede Cerrado e liderança Xavante, Hiparidi Toptiro afirma que os povos do Cerrado e da Caatinga devem “andar de mãos dadas”. Foto: Acervo Rede Cerrado

Durante a programação, representantes da Rede Cerrado dialogaram com organizações de todo o Semiárido brasileiro, fortalecendo articulações construídas no âmbito do projeto Redes pela Conservação e ampliando conexões para a COP17. O encontro também proporcionou uma imersão na Caatinga e visitas a territórios onde foram conhecidas tecnologias sociais voltadas à convivência com o Semiárido.

Para a secretária executiva da Rede Cerrado, Ingrid Silveira, a experiência ampliou o olhar da organização sobre a pauta climática.

“O Caatinga Climate Week nos mostrou que é possível falar sobre clima e desertificação a partir da identidade dos povos e de seus saberes. A convivência com o Semiárido está profundamente ligada à cultura, ao território e às soluções construídas pelas comunidades. Esse aprendizado fortalece nossa atuação e nossa preparação para a COP17.”

A garantia dos direitos territoriais também é uma estratégia de enfrentamento da crise climática. Povos e comunidades tradicionais conservam áreas de vegetação nativa, protegem nascentes e veredas e desenvolvem formas de manejo adaptadas às características de cada território. Fortalecer esses direitos significa ampliar a capacidade do Cerrado de enfrentar a degradação ambiental, proteger seus recursos hídricos e reduzir a vulnerabilidade ao avanço da semiaridez.

Programação da Caatinga Climate Week propôs aos participantes uma imersão no bioma. Foto: Thalys, The Creator | Caatinga Climate Week

Essa discussão ganha urgência diante dos dados mais recentes. Documento da Secretaria Extraordinária de Controle do Desmatamento e Ordenamento Ambiental Territorial do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) aponta o aparecimento das primeiras áreas áridas e um aumento de 52% em semiáridas avançando sobre o Matopiba, entre 2005 e 2023, com base em dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Segundo o levantamento, as mudanças climáticas e o desmatamento decorrente da mudança do uso do solo estão entre os principais fatores desse avanço.

A avaliação é reforçada por Alexandre Pires, diretor do Departamento de Combate à Desertificação da Secretaria Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais e Desenvolvimento Rural Sustentável do MMA. Durante o encontro Cerrado no Mundo: Territórios, Direitos e Incidência Global, realizado em maio na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), ele afirmou que o Cerrado tornou-se a principal fronteira de expansão da semiaridez no país, “ameaçando a biodiversidade, os modos de vida dos povos e comunidades tradicionais e, principalmente, a ‘caixa d’água do Brasil'”.

Os aprendizados construídos na Caatinga Climate Week e no Cerrado no Mundo fortalecem a preparação da Rede Cerrado para a COP17. Na conferência, a organização pretende levar ao debate internacional não apenas os impactos da degradação ambiental sobre o Cerrado, mas também as soluções construídas pelos povos e comunidades tradicionais. A mensagem é clara: proteger os territórios é proteger as águas, a biodiversidade e as condições para enfrentar o avanço da semiaridez e das mudanças climáticas.