O Cerrado é território, cultura, trabalho, alimento, água, memória e resistência. Para os povos e comunidades que vivem no bioma, sua conservação está diretamente ligada à garantia de direitos e à continuidade de seus modos de vida.
Mais da metade da vegetação nativa do Cerrado já foi destruída. A expansão do agronegócio, da mineração e de grandes empreendimentos ameaça territórios, águas, comunidades e modos de vida, em um processo marcado pela grilagem, pelo desmatamento, pela contaminação das águas, pela violência no campo e pela negação dos direitos territoriais dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.
De acordo com o MapBiomas (2025), em 40 anos, o bioma perdeu 40,5 milhões de hectares, equivalentes a 28% de sua vegetação nativa. Dados do Relatório Anual do Desmatamento no Brasil (RAD2025) também mostram a dimensão da pressão sobre o bioma: pelo terceiro ano consecutivo, o Cerrado foi o bioma mais desmatado do país. Em 2025, concentrou 55% de toda a área desmatada no Brasil, embora ocupe cerca de 24% do território nacional.
Foram mais de 540 mil hectares de vegetação nativa desmatados no Cerrado em 2025, área equivalente, em tamanho, a praticamente todo o território do Distrito Federal. A formação savânica, vegetação típica do bioma, respondeu por 72% do desmatamento.
Nesse cenário, os territórios dos povos e comunidades tradicionais e de agricultores familiares também revelam outra possibilidade de relação com o Cerrado. Levantamento do Tô no Mapa, com dados de 399 comunidades tradicionais de 11 estados, mostra que os territórios tradicionais autodeclarados mantêm, em média, 80% de vegetação nativa, enquanto o índice médio nas áreas do entorno é de 65%. Entre 2023 e 2024, o desmatamento dentro dos territórios automapeados foi 16 vezes menor do que no entorno.
É nesse contexto que as vozes das 89 organizações filiadas à Rede Cerrado e das mais de 300 organizações que atuam de forma indireta junto com a articulação ganham força — divididas em quatro núcleos regionais: Mato Grosso do Sul e Mato Grosso; Bahia e Minas Gerais; Piauí e Maranhão; e Tocantins, Goiás e Distrito Federal. Os depoimentos de representantes de diferentes povos, comunidades e organizações mostram que defender o Cerrado é também defender territórios, águas, culturas, conhecimentos e formas de produzir e viver.
Território é vida
Da Comunidade Quilombola Vila das Almas, no Maranhão, Maria Ludovica Costa Pereira destaca a importância do território para a vida e a resistência da comunidade, formada por 560 famílias. “A nossa comunidade Vila das Almas […] é nossa vida, nossa luta, nossa resistência, é nossa alegria de viver”, afirma.
Dentro da comunidade, ela destaca a presença dos rios, riachos e frutas que fazem parte da vida cotidiana.

No norte de Minas Gerais, Manuel Xakriabá, presidente da Associação de Xakriabá, conta que cerca de 2 mil indígenas vivem nas 37 aldeias do povo. Segundo ele, a comunidade desenvolve projetos voltados à preservação do meio ambiente e à sustentabilidade, com iniciativas de extrativismo, agricultura familiar e fortalecimento cultural. Para os Xakriabá, a relação com o Cerrado está diretamente ligada à cultura e à vida do povo.
“O Cerrado faz parte da nossa cultura, é o berço das águas”, afirma Manuel. Diante dos desafios para a conservação do bioma, ele defende a união entre diferentes povos e comunidades para fortalecer a defesa do Cerrado. “A gente tem mesmo que unificar essas lutas para deixar cada vez mais o Cerrado em pé.”

A relação entre território, identidade e conservação também aparece no relato de Odília Morais, da comunidade tradicional Taboqueana, em São Péricles do Araguaia, no Mato Grosso. Extrativistas e ribeirinhos, os Taboqueanos reivindicam o reconhecimento de sua identidade e de seus modos de vida, uma vez que ainda não reconhecidos pelo Decreto 6040/2007, que institui a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais (PNPCT).
“Nós somos um movimento de mistura de povos, estamos na luta pelo reconhecimento como Taboqueanos, que é um segmento de comunidade tradicional”, explica Odília. Ela conta que a comunidade mantém práticas próprias relacionadas à construção das casas e canoas, à culinária e ao artesanato, com base na taboca, uma espécie de bambu.
Para ela, o reconhecimento é também uma forma de garantir a continuidade dessa história. “Essa luta para nós é muito importante, ser reconhecidos como Taboqueanos porque nós vamos definir a nossa identidade, resgatar a nossa ancestralidade e manter a nossa cultura e não deixar de existir.”
O território, nesse contexto, não é apenas o espaço onde as comunidades vivem. É também onde estão as plantas utilizadas na medicina natural, os frutos coletados e os conhecimentos transmitidos entre gerações. “O nosso território é um lugar de pertencimento”, afirma Odília.
Lucinete Francisca Luiz da Cunha, também integrante da comunidade tradicional, resume parte dessas práticas: “A gente cata semente, colhe casca de pau que serve para remédio, a gente mexe com horta, a gente mora lá mesmo, então a gente quer ser reconhecido como povo tradicional Taboqueano”.

A disputa pelo Cerrado em pé
Em todas as regiões, os depoimentos apontam para as pressões que ameaçam os territórios.
Presidente da Associação do Povo Indígena Akroá-Gamella de Uruçuí e Adjacências, Maria da Conceição de Souza, liderança indígena conhecida por Cacica Dan, chama atenção para a situação dos territórios ainda não demarcados e para o avanço do agronegócio. “Os nossos territórios não tem nenhum demarcado”, afirma. Para ela, a demarcação é necessária para evitar que o Cerrado continue sofrendo com a perda de áreas.
“Vamos lutar pelo Cerrado em pé em todas as áreas, não deixar desmatar, não arrancar nossas raízes”, defende. Ela também destaca a importância das plantas medicinais para as comunidades: “As plantas medicinais são vida e alimento”.

Eliseu José de Oliveira, geraizeiro e diretor-geral do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA-NM), aponta as plantações de eucalipto, a mineração e a seca entre os principais desafios enfrentados na região.
Segundo ele, as plantações de eucalipto destruíram nascentes e prejudicaram populações que vivem nas veredas. A recuperação das nascentes e a retomada dos territórios das comunidades, afirma, são necessárias para garantir o acesso à água.
O trabalho desenvolvido pelo CAA-NM envolve agroecologia, direitos dos povos tradicionais e aproveitamento de produtos do Cerrado. A organização também atua na articulação de cooperativas e no fortalecimento das comunidades. “A Rede Cerrado é uma grande referência para o CAA”, afirma Eliseu.

No Tocantins, a luta das quebradeiras de coco babaçu está diretamente relacionada ao acesso ao território. Maria Conceição, coordenadora do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), conta que começou a quebrar coco aos seis anos e que essa atividade atravessa diferentes momentos de sua vida.
O acesso à matéria-prima é um dos desafios enfrentados pelas mulheres quebradeiras de coco. Sem território livre para trabalhar, muitas precisam entrar em propriedades de terceiros para coletar o babaçu. Uma das conquistas dessa luta é a Lei do Babaçu Livre, vigente no Piauí, Tocantins e Maranhão, que proíbe a derrubada das palmeiras e garante às comunidades extrativistas o livre acesso aos babaçuais.

“Outro desafio são todas as cercas: cerca do medo, do ódio, da violência contra mulher. Cerca elétrica”, relata Maria Conceição. Segundo ela, há propriedades que impedem a entrada das quebradeiras e utilizam cercas elétricas, enquanto outras situações envolvem a presença de gado, búfalos e vaqueiros.
Para ela, defender os babaçuais também significa combater práticas que ameaçam as palmeiras. “Nós precisamos defender a floresta do babaçu em pé”, afirma.
Água, produção e modos de vida
A conservação do Cerrado aparece nos depoimentos também como uma defesa das águas e das condições necessárias para a produção e a sobrevivência das comunidades. Afinal, o bioma conhecido como berço das águas abriga as nascentes de oito das 12 grandes bacias hidrográficas nacionais. O solo poroso do Cerrado retém a carga das chuvas para depois compartilhá-la com a bacia Amazônica, ao norte, para onde seguem as águas de 3 427 nascentes.
Do território Kalunga do Mimoso, o coordenador estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins (COEQTO) Lorivaldo Kalunga destaca a importância da articulação entre os estados do Tocantins, Goiás e Distrito Federal. Para ele, a troca de experiências entre diferentes segmentos contribui para a construção de estratégias de luta.
“É importante para gente avançar na proteção das águas, solo e florestas para manter de pé o bioma Cerrado”, afirma. Ele também chama atenção para os efeitos das crises climáticas sobre os sistemas produtivos das comunidades quilombolas, povos da floresta, extrativistas e pescadores.
No Mato Grosso do Sul, Natália Ziolkowski, socióloga e diretora da Ecoa (Ecologia e Ação), relata o trabalho desenvolvido com povos e comunidades tradicionais e destaca a importância de atuar junto a quem vive e defende os territórios.
Entre as agendas acompanhadas pela organização estão as cadeias da sociobiodiversidade, o combate a incêndios, a formação de brigadas comunitárias, as mudanças climáticas e os impactos de empreendimentos de infraestrutura e energia.
Segundo Natália, os incêndios que atingiram o Pantanal nos últimos anos tiveram impactos sobre a economia das comunidades e seus modos de vida. Ela também chama atenção para os desafios relacionados ao reconhecimento e à regulamentação dos territórios.

“As comunidades têm muitos desafios de regulamentação dos seus territórios, de reconhecimento, de valorização do que estão fazendo, que nada mais é do que conservar e manter os seus territórios existindo e coexistindo com as espécies da fauna e da flora nativa, silvestre”, afirma.
Ela relata ainda a preocupação com as nascentes do Cerrado. “As nascentes estão secando no Cerrado, as populações do Cerrado estão olhando para isso, estão fazendo recuperação de nascentes, a gente tem apoiado esse trabalho, mas não é o suficiente.”
Uma rede construída pelos territórios
Se os desafios são diversos, os depoimentos também mostram a importância da organização coletiva para enfrentá-los.
No Piauí, Aurélio Borges, cacique dos Gueguês do Sangue, conta que seu povo está situado às margens do Rio Parnaíba e presente em diferentes localidades. A comunidade trabalha com agricultura familiar e reúne mais de 200 famílias.
Na Bahia, Isabel de Jesus Souza, moradora do assentamento Manoel Dias e integrante da Fundação de Desenvolvimento Integrado do São Francisco (FUNDIFRAN), destaca a trajetória de luta pela terra, por políticas públicas, educação, acessibilidade e outros direitos.
Para ela, a articulação entre diferentes grupos e territórios fortalece essas lutas. “É muito importante a gente poder somar essa força com diversos outros grupos que vêm de diversos espaços e territórios do Brasil”, afirma.

No Mato Grosso, Eliseu Xum Xum, da Comunidade Quilombola Cristo Rei, em Várzea Grande (MT), também reforça a dimensão coletiva da luta. “A gente está aqui porque a gente é da luta e a gente leva esse conhecimento para as demais comunidades para lutar pela conservação dos seus territórios.”
Ele resume essa perspectiva na relação entre conhecimento, cultura e pertencimento: “O povo que não conhece da sua cultura e da sua história é que nem árvore sem raiz.”

No Tocantins, Maria Senhora, agricultora familiar, diretora da Alternativas para a Pequena Agricultura no Tocantins (APA-TO) e do Sindicato dos Trabalhadores Rurais do Tocantins, destaca a diversidade de organizações que atuam no estado e os desafios para manter esse trabalho.
Para ela, a articulação em rede pode contribuir para fortalecer as organizações e ampliar sua capacidade de atuação diante de questões como mineração e defesa dos direitos de agricultores familiares e quilombolas.
“Esse encontro deu dimensão do que a Rede é capaz e do que pode ajudar a gente ser realmente uma rede produtiva, que conduz, que trata das políticas, dos agricultores familiares do nosso estado”, afirma.

Maria Conceição, do MIQCB, também vê a Rede Cerrado como uma parceira na defesa dos territórios e dos babaçuais. “Eu vejo a Rede como uma articulação que vem pra somar. Pra nos ajudar nessa defesa do babaçu em pé, na luta contra os agrotóxicos.”
Para Natália Ziolkowski, a articulação tem importância semelhante no Mato Grosso do Sul. “A Rede Cerrado é uma das principais redes de apoio para nós do estado do Mato Grosso do Sul e que está articulando as populações, as comunidades, fortalecendo esse trabalho que o ECOA faz com as bases.”
Os depoimentos, vindos dos quatro núcleos regionais da Rede Cerrado — MS e MT; BA e MG; PI e MA; e TO, GO e DF — mostram diferentes experiências de povos, comunidades e organizações que têm no território a base de seus modos de vida.
Em um cenário de avanço do desmatamento e de diferentes pressões sobre o bioma, essas experiências também evidenciam que a conservação do Cerrado passa por reconhecer e fortalecer quem vive nos territórios, seus conhecimentos, suas formas de organização e seus modos de vida.
Neste 11 de setembro, Dia do Cerrado, são essas vozes que ajudam a contar a história de um bioma que não pode ser separado das pessoas que vivem, trabalham, produzem, cuidam e lutam por seus territórios.




