Morreu nesta quinta-feira, 3 de julho, aos 80 anos, o cacique-geral do povo Khĩsêtjê, Khuiusi Suyá. Liderança desde a juventude, Khuiusi foi uma referência para a Rede Cerrado e para a Mobilização dos Povos Indígenas do Cerrado (MOPIC), destacando-se pela defesa dos direitos territoriais e pela preservação da cultura de seu povo.
Para o coordenador-geral da Rede Cerrado, Hiparidi Toptiro, Khuiusi deixa um legado de resistência, sabedoria e compromisso com as futuras gerações.
“Ele não falava português, e essa era a arma que ele tinha: falar em sua própria língua. Quando fui coordenador da MOPIC, ele me aconselhou, e seus ensinamentos me fortaleceram. Muitas coisas mudaram dentro de mim ouvindo os mais velhos, e ele foi um deles”, afirmou Hiparidi.
Khuiusi tornou-se a principal liderança do povo Khĩsêtjê ainda muito jovem. Durante o período inicial do contato com a sociedade não-indígena, quando tinha menos de 20 anos, perdeu o pai e praticamente todos os homens das gerações mais velhas de seu povo. Diante desse cenário, assumiu a responsabilidade de conduzir e proteger sua comunidade.
Mesmo sem falar português ou dominar a escrita nessa língua, destacou-se por sua inteligência, sabedoria, coragem e visão política. Na década de 1990, diante do avanço da agropecuária sobre a bacia do rio Suiá-Miçu, liderou a mobilização pela recuperação do território tradicional dos Khĩsêtjê. Como resultado dessa luta, parte da área foi reconhecida e demarcada como a Terra Indígena Wawi, contribuindo também para a proteção do Território Indígena do Xingu.
A conquista, no entanto, não encerrou sua luta. Khuiusi seguiu defendendo a recuperação das áreas onde viveu sua juventude e que permaneceram fora dos limites da terra demarcada. Profundo conhecedor da história, da cultura e das tradições de seu povo, era respeitado por diferentes povos do Território Indígena do Xingu por sua coerência, sabedoria e clareza política. Sua trajetória inspirou e continuará inspirando novas gerações de lideranças indígenas na defesa dos territórios, da cultura, da espiritualidade e dos modos de vida dos povos originários.
As informações são da Associação Indígena Kisêdjê (AIK) que, em nota de homenagem, destacou que o legado do cacique permanecerá vivo.
“Khuiusi Suyá nos deixou fisicamente. No entanto, sua luta, seus ensinamentos e seu legado permanecerão vivos para sempre na memória das futuras gerações do povo Khĩsêtjê e de todos os povos indígenas que tiveram a honra de caminhar ao seu lado.”
O fotógrafo e cineasta ambiental Kamikia Kisêdjê, parceiro da Rede Cerrado e autor da fotografia que acompanha esta homenagem, também prestou tributo ao líder.
“Com sua inteligência, sabedoria e coragem, você reconquistou nosso território ancestral, onde vivemos hoje. Fundou a Associação Indígena Kisêdjê (AIK), que se tornou uma escola exemplar, formando muitas pessoas, assim como eu. Kuiussi, irmão da minha avó Kokojangotxi, que também nos deixou em 2006, partiu hoje para reencontrar sua irmã.”
A Rede Cerrado manifesta solidariedade ao povo Khĩsêtjê, aos familiares, amigos e a todos os povos indígenas que compartilham a dor desta perda. Que a memória e o legado de Khuiusi Suyá sigam inspirando a defesa dos territórios, dos direitos e da vida.




