Paisagem hídrica do Cerrado muda com avanço de reservatórios artificiais
21 jul 2026
Levantamento do MapBiomas mostra redução de 38% da superfície de rios, lagos e lagoas naturais desde 1985, enquanto barragens e açudes cresceram 87%

Expansão das hidrelétricas alagou 312 mil hectares de vegetação nativa ao longo dessas quatro décadas. Foto: Thiago Amaral/Governo do Piauí

O Cerrado brasileiro passa por uma transformação significativa em sua paisagem hídrica. Dados do MapBiomas, produzidos em parceria com a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), mostram que a superfície de rios, lagos e lagoas naturais do bioma diminuiu 38% entre 1985 e 2025. No mesmo período, a área ocupada por barragens, açudes e outros corpos hídricos artificiais cresceu 87%.

Segundo o professor Pedro Luiz Côrtes, do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP e da Escola de Comunicações e Artes (ECA), os resultados evidenciam uma intervenção humana cada vez maior sobre o Cerrado. “Durante muito tempo, o bioma foi considerado uma região pouco produtiva. Posteriormente, em razão de suas inúmeras nascentes, que alimentam importantes bacias hidrográficas brasileiras, passou a despertar interesse para a construção de barragens e usinas hidrelétricas destinadas à geração de energia, à irrigação e ao abastecimento urbano”, explica.

Riscos para as bacias hidrográficas

As alterações na paisagem hídrica do Cerrado podem comprometer as bacias hidrográficas abastecidas pelos rios que têm origem no bioma. O levantamento do MapBiomas utiliza imagens dos satélites Landsat, com resolução espacial de 30 metros, o que dificulta o mapeamento de corpos d’água menores e impede a estimativa precisa do volume de água disponível.

Ainda assim, a análise demonstra uma tendência clara: os corpos hídricos naturais com dimensões superiores a 30 metros estão diminuindo, enquanto cresce a presença de reservatórios artificiais.

Embora barragens e açudes desempenhem papel importante no desenvolvimento econômico, especialmente na geração de energia, na irrigação e no abastecimento, a substituição de ambientes naturais por estruturas artificiais pode comprometer o equilíbrio dos ecossistemas, afetar nascentes e aumentar a vulnerabilidade das regiões durante períodos de estiagem prolongada. Para o pesquisador, monitorar os impactos acumulados dessas intervenções é fundamental para preservar a segurança hídrica do Cerrado e das bacias hidrográficas que dependem de suas águas.

Ouça a entrevista completa na Rádio USP.

* Texto originalmente publicado no Jornal USP.