Por Luana Campos/ECOA
O extrativismo sustentável do baru no Cerrado de Mato Grosso do Sul acaba de ganhar uma nova base de informações sobre territórios de coleta, biodiversidade, clima e comportamento da espécie. A Ecoa disponibilizou a atualização do Mapa Dinâmico sobre Extrativismo Sustentável do Baru, uma ferramenta online que reúne dados produzidos com participação direta de famílias extrativistas e comunidades locais.
A nova versão apresenta informações do Monitoramento Participativo do Baru 2025/2026 e permite comparar os registros mais recentes com dados levantados em 2021 e 2022. O mapa reúne informações sobre floração, frutificação, período de coleta e regiões onde a castanha é coletada, ajudando a observar o comportamento do baru ao longo do tempo e a planejar melhor cada safra.
Ciência cidadã aplicada à cadeia do baru
As informações foram registradas em campo por meio da plataforma KoboToolbox, dentro de uma metodologia de ciência cidadã. Nesse processo, moradores, coletores e pessoas que conhecem o território participam da produção de dados sobre as áreas onde vivem e trabalham. O conhecimento local, portanto, passa a compor uma base organizada sobre o Cerrado, construída a partir de quem acompanha de perto os ciclos da espécie e a dinâmica da coleta.
Segundo Nathalia Ziolkowski, diretora presidenta da Ecoa e coordenadora da iniciativa, os dados de 2025/2026 não substituem os registros anteriores. Eles se somam ao monitoramento de 2021/2022 e ajudam a formar uma base histórica sobre o comportamento do baru, as variações entre safras e possíveis relações com fatores ambientais e climáticos.
O que mudou entre os períodos monitorados
A comparação entre os dois períodos mostra diferenças no ciclo reprodutivo do baru (Dipteryx alata) em Mato Grosso do Sul. De acordo com o estudo comparativo apresentado na plataforma, os dados coletados durante os seis meses do monitoramento 2025/2026 indicaram mais baruzeiros em fase inicial de floração e menos árvores com flores abertas e frutos, em relação aos registros de 2021/2022. Ainda é cedo para afirmar se essa mudança representa uma tendência, mas o resultado aponta a importância de manter o acompanhamento da espécie de forma recorrente.
Apesar das diferenças observadas na fase reprodutiva, as principais áreas de ocorrência do baru permaneceram praticamente as mesmas, com destaque para regiões de Anastácio, Nioaque e Dois Irmãos do Buriti. Essa continuidade territorial é relevante para a organização da cadeia, porque permite acompanhar áreas produtivas ao longo do tempo, orientar o planejamento da coleta e preparar comunidades, organizações locais e parceiros para safras maiores ou menores.
A atualização do mapa também tem uma função prática para a sociobioeconomia do baru. Para o CEPPEC – Centro de Produção, Pesquisa e Capacitação do Cerrado, em Nioaque, “o mapa contribui para o planejamento da safra e para a rastreabilidade da cadeia do baru. Ele não substitui os processos formais de certificação, mas oferece uma camada importante de informação sobre a origem da coleta, os territórios envolvidos e o arranjo produtivo organizado com as comunidades”, explica Nathalia Ziolkowski.
Origem, conservação e valor agregado
A atualização do mapa ocorre em um momento estratégico para o baru. O conteúdo foi desenvolvido dentro do projeto “Superalimento de castanha de baru das famílias locais do Cerrado brasileiro para consumidores dinamarqueses”, realizado pela Ecoa em parceria com a Forests of the World (BDM), da Dinamarca, com financiamento da Danida. A proposta contou ainda com a participação do CEPPEC e da organização dinamarquesa NØDDEBAZZAREN, aproximando a produção local de mercados internacionais comprometidos com a sociobiodiversidade.
Nesse contexto, a origem da castanha passa a fazer parte do valor do produto. Para consumidores, parceiros comerciais e instituições apoiadoras, o mapa mostra onde o baru é coletado, quem participa da cadeia e como o manejo sustentável se relaciona com áreas de Cerrado nativo. A castanha deixa de ser apresentada apenas pelo produto final e passa a ser compreendida a partir do território, das famílias coletoras e dos ambientes que tornam essa produção possível.
O baru coletado de forma responsável depende da manutenção das árvores em pé e dos ambientes onde elas ocorrem. Por isso, o monitoramento participativo também ajuda a evidenciar a relação entre geração de renda por meio da sociobiodiversidade, conservação do Cerrado e valorização dos modos de vida e conhecimentos das comunidades cerratenses.
Para entender a ferramenta
O que é o Mapa Interativo da Ciência Cidadã do Baru?
É uma plataforma online que reúne dados sobre áreas de coleta, biodiversidade, clima, floração, frutificação e uso sustentável do território em regiões de extrativismo do baru no Cerrado de Mato Grosso do Sul.
Como os dados foram coletados?
As informações foram registradas em campo com participação direta de comunidades extrativistas, por meio da plataforma KoboToolbox. O processo integra a metodologia de ciência cidadã.
O que há de novo na atualização?
A nova versão reúne dados do monitoramento 2025/2026 e permite comparação com informações coletadas em 2021/2022, ajudando a acompanhar o comportamento do baru ao longo do tempo.
Como o mapa ajuda as famílias extrativistas?
A ferramenta apoia o planejamento da safra, a organização da coleta, a rastreabilidade da castanha e a valorização dos territórios onde o baru é manejado de forma sustentável.
Qual é a relação entre o mapa e a conservação do Cerrado?
Ao mostrar áreas de coleta em Cerrado nativo, o mapa evidencia que o extrativismo sustentável do baru pode gerar renda ao mesmo tempo em que contribui para manter árvores e territórios conservados.
* Texto originalmente publicado em ECOA.




