Por Samuel Caetano
Volta e meia me pego ruminando uma pergunta simples e incômoda: onde foi que a gente errou. Não no sentido moral, mas quase topográfico, como quem procura o ponto exato em que a estrada entortou sem aviso. A gente fala, escreve, formula, refina. Aprende palavras novas, perde as antigas. E, mesmo assim, parece que o debate não passa da sala onde foi criado. Do lado de fora, a vida segue, muitas vezes em direção contrária. É curioso observar como certas ideias ganharam ar de modernidade justamente por desmontarem aquilo que levou décadas para ser minimamente construído. Direito virou privilégio. Regra virou entrave. Proteção virou fraqueza. O mais impressionante é ver gente que vive do próprio trabalho fazer piada daquilo que, com todas as falhas, ainda o protege do abismo. Como se o problema fosse o colete salva-vidas e não o naufrágio. A educação, que mal teve tempo de respirar fora do cercadinho, já voltou a ser tratada como luxo desnecessário. Água entra na prateleira. O comum vira produto premium. Tudo muito racional, técnico, elegante. Parece até cena de filme distópico, daqueles em que o mundo acaba sem barulho, com contrato assinado e sorriso corporativo. O apocalipse, hoje, vem em PowerPoint. Talvez a questão esteja na inteligência do sistema. Um sujeito discreto, pouco citado, mas extremamente eficiente. Ele cria a crise, vende o medo, oferece a saída e ainda convence a plateia de que não há alternativa. Neutraliza a crítica, cansa a indignação e transforma escândalo em rotina. Quando tudo é absurdo, nada mais escandaliza. Aí a gente começa até a achar feio falar dele, como se nomear fosse falta de sofisticação. Melhor parecer moderno do que lúcido. No fim, fico com a sensação de que damos voltas elaboradas ao redor do problema e evitamos tocar no que realmente estrutura a desigualdade. Talvez por desconforto, talvez por hábito, talvez por conveniência. E aí deixo a pergunta, meio atravessada, meio antiga, mas insistente: se não encaramos a concentração da terra e do poder como questão fundante, estamos mesmo discutindo transformação ou só rearrumando as cadeiras.
Não é utopia, é regra de mundo
Se o medo do fracasso me paralisasse, eu seria pedra de gelo à beira do caminho, imóvel e endurecido pela própria hesitação. Mas ele não me paralisa, ele me impulsiona. É força motriz, brasa sob a cinza, vento que tensiona as velas quando o mar se impõe vasto diante de nós. Ter consciência política é aprender a reconhecer o medo sem se ajoelhar diante dele. É compreender que a coletividade é a medida ética dos nossos passos. Quem foi formado no nós não teme a queda da própria imagem, teme apenas falhar com o povo. Fui forjado para buscar o que muitos chamam de impossível, e há dádiva nisso, ainda que os sacrifícios sejam constantes. Porque quem escolhe a terra, o território e o povo livre como horizonte já não vive apenas para si, vive para a travessia. Dizer ao povo que avance é mais que palavra de ordem, é compromisso histórico. É não temer o sistema quando ele se apresenta como destino inevitável. É, na prática, abrir mão da própria centralidade para servir a um propósito maior. Talvez eu não veja a cor da revolução, talvez não dance na festa quando ela chegar, mas há uma beleza imensa em semear aquilo que outros colherão. Sustentar a visão quando ela é chamada de impossível pelos pragmáticos é um ato de lucidez profunda. Não é utopia ingênua, é regra e visão de mundo. Abraçar o que parece inalcançável é a forma mais radical de realismo, pois toda transformação nasceu da coragem de quem ousou transcender o cálculo. O medo existe, mas não me governa; ele me lembra que a responsabilidade é viva e que a história não se faz com recuo. A terra chama, o território respira, o povo pulsa, e a revolução começa na decisão cotidiana de permanecer inteiro, com ternura e firmeza, sem retroceder.
Manejo dos gerais
O manejo do gado Geraizeiro que desenvolvemos ao longo de mais de quarenta anos, dando continuidade ao legado do Sr. Braulino, é fruto de observação permanente, seleção funcional e experimentação prática no Cerrado norte mineiro. A base genética parte do chamado pé duro guela seca Geraizeiro, animal adaptado à seca, às pastagens nativas e às longas caminhadas, cruzado de forma criteriosa com Tabapuã e Nelore, incorporando em alguns ciclos reprodutores de aptidão leiteira rústica, buscando equilíbrio entre rusticidade, ganho de peso e produção de leite.
O resultado é um rebanho de porte médio a baixo, um gado curto, predominantemente mocho, característica estratégica porque as estações de manejo são pequenas e o chifre provoca lesões entre os animais e risco para quem está na lida. As fêmeas produzem em média de seis a oito litros de leite por dia em regime extensivo, a pasto nativo, praticamente sem suplementação concentrada, demonstrando eficiência produtiva em sistema de baixo custo. Os machos alcançam entre doze e quinze arrobas no sistema tradicional, com boa conversão alimentar mesmo em pastagens de cerrado ralo, chapadas e veredas.
Trata-se de um gado extremamente rústico, resistente, adaptado a longos períodos de estiagem, com grande capacidade de aproveitar forrageiras diversificadas, capim nativo, rebrotas e restos de roça. É dócil, de fácil manejo, adequado à criação solta, respeitando o modo Geraizeiro de criar, com circulação ampla, água corrente e sombra de árvores do Cerrado. Mais que um rebanho, é uma tecnologia construída no território, combinando saber empírico, seleção genética funcional e inteligência camponesa. É o legado do Sr. Braulino transformado em resultado concreto, mostrando que tradição e técnica caminham juntas quando o Cerrado é a referência maior.
Um Xavante e um geraizeiro
Encontro com o irmão ancestral Hiparidi Dzutsi Wa Top Tiro, chefe da nação Xavante. Seu recente período de cuidado com o corpo e com a saúde não foi recolhimento, foi preparação. Liderança indígena não se improvisa, se forja na disciplina, na consciência histórica e na responsabilidade coletiva. Sua trajetória expressa compromisso político com os povos do Cerrado e reafirma que território é fundamento de existência e autodeterminação. Tê-lo na coordenação da Rede Cerrado é reconhecer uma liderança que articula tradição e estratégia, espiritualidade e projeto político. Em tempos de intensificação dos conflitos socioambientais, sua presença representa firmeza, direção e horizonte. Seguimos na construção de uma agenda comum, com respeito, coerência e disposição revolucionária. Hõhãgwa.

O silêncio confortável do poder
Ando encucado esses dias. Não é teoria, é estrada, é andança mesmo, especialmente por Brasília, esse lugar onde o poder mora em prédios bonitos e a vida real costuma esperar do lado de fora, quase sempre sem convite. Uma coisa tem me chamado atenção com insistência quase didática. O presidente apanha o tempo todo. Apanha da direita, da esquerda, do centro que finge neutralidade, da imprensa, das redes, dos órgãos de controle, dos que gritam e dos que sussurram. É investigação, crítica, cobrança, pressão. Confesso que acho saudável. Democracia que não faz barulho vira museu, desde que o barulho não seja feito de mentira e histeria. O que me intriga é o contraste. Enquanto o presidente vira alvo permanente, o Congresso atravessa o cenário com discrição elegante, quase invisível. É ali que a engrenagem pesada funciona sem alarde, com café quente, discurso técnico ensaiado e ar-condicionado regulado. Pouco se fala que o Congresso consome algo entre 14 e 15 bilhões de reais ao longo de um mandato de quatro anos. Dinheiro público suficiente para virar política concreta, mas que raramente entra no debate cotidiano com a mesma intensidade das críticas ao Executivo. Também se comenta pouco que cada parlamentar, somando salário, gabinete, assessores, estrutura e emendas, movimenta algo na casa dos 23 a 25 milhões por ano. Ao longo do mandato, a cifra ganha densidade e poderia transformar territórios inteiros, mas costuma virar planilha organizada e nota técnica que quase ninguém lê. O chamado orçamento secreto, mesmo declarado inconstitucional, apenas trocou de formato. Saiu do palco, foi para os bastidores e segue irrigando bases políticas com discrição. Tudo dentro da lei, dizem. A lei, aliás, costuma ser flexível quando se acomoda em cadeiras estofadas. Quase ninguém debate com a mesma veemência o arcabouço fiscal, nome neutro e técnico que fala em responsabilidade, mas raramente explicita a serviço de quem ela está. Quando a despesa é contida, quem aperta o cinto? Quem sente o ajuste? Raramente é quem decide. Enquanto isso, cerca de 70% do Congresso votou para manter a escala 6×1. Seis dias de trabalho para um de descanso. Nesse único dia você lava roupa, resolve pendências, organiza a casa, tenta ver quem ama, tenta cuidar da cabeça. Segunda-feira chega pontual e tudo é tratado como questão técnica, nunca como escolha política. Talvez a pergunta seja simples demais para Brasília gostar dela: por que deixamos o Congresso tão confortável? Por que a crítica afiada mira quase sempre o Executivo, enquanto o Legislativo, que decide o orçamento e o ritmo da vida de milhões, opera num silêncio elegante? Às vezes a democracia não falha pelo excesso de conflito, mas porque nos acostumamos com o silêncio justamente onde o poder descansa.
Quando o povo aprende a ler o tabuleiro
Há figuras que não quebram correntes à força, mas ensinam a enxergá-las, e isso basta para se tornarem intoleráveis. O gesto é simples e, justamente por isso, imperdoável: explicar que salário não é favor, que fome não é falha moral, que terra não é mercadoria neutra, que escola não é gasto, mas chave. Quando isso acontece, o que parecia ordem natural revela-se engenharia social cuidadosamente montada. O incômodo não nasce do pão que chega à mesa, mas da pergunta que acompanha o prato; não é o acesso ao crédito que irrita, é o entendimento do juro; não é o título da terra, é a memória da grilagem; não é o diploma na parede, é a consciência de que o saber sempre foi controlado como cerca invisível. Cada política que vira linguagem comum desmonta um mito antigo, o de que alguns mandam porque nasceram aptos e outros obedecem porque assim foi escrito. A reação da elite é conhecida e coreografada: primeiro o riso condescendente, depois o moralismo seletivo, em seguida a acusação de desordem, populismo e ameaça. Aciona-se a mídia como púlpito, o mercado como oráculo, a lei como chicote elegante. Não se discute o mérito, ataca-se o mensageiro, porque quem aprende a ler o tabuleiro deixa de aceitar a partida viciada. No fundo, não se combate a política que distribui renda, mas a pedagogia que distribui consciência. A miséria é administrável, a lucidez não. Quando o explorado entende o jogo, a dominação perde o disfarce e a história começa a mudar de tom.
Avancemos
Somos poucos e os recursos são curtos, mas o impossível sempre começou assim. O tempo parece árido, mas é no chão rachado que a semente aprende a resistir. A história não se curva aos prudentes, ela é virada por quem insiste quando tudo manda recuar. Que a passagem por este tempo seja ruptura, que onde havia silêncio surja voz, onde havia medo surja passo. E que o povo avance.
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* Sobre o autor
Samuel Caetano Geraizeiro é educador popular e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Sustentabilidade junto a Povos e Territórios Tradicionais (MESPT), da Universidade de Brasília, onde desenvolve a pesquisa “Do convívio à resistência: caminhos da luta territorial no Movimento Geraizeiro”. Integra o Movimento Geraizeiro e a Articulação Rosalino Gomes. Atualmente, é presidente do Conselho Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais (2023–2026) e coordenador técnico do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas.
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