O Ofício de Raizeiras e Raizeiros do Cerrado é, oficialmente, patrimônio cultural do Brasil. O reconhecimento foi aprovado durante a 113ª reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, realizada nesta quarta-feira (10/06), no auditório do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em Brasília (DF). Com a decisão, o ofício passa a integrar o Livro de Registro dos Saberes do Iphan.
O Livro de Registro dos Saberes reúne conhecimentos e modos de fazer enraizados no cotidiano de comunidades: técnicas, ofícios e práticas transmitidos entre gerações que expressam a identidade e a memória de grupos sociais e territórios.
O presidente do Iphan, Deyvesson Gusmão, destacou a importância da participação de detentores e representantes de povos e comunidades tradicionais nos processos de reconhecimento e preservação do patrimônio cultural brasileiro. Segundo ele, essas comunidades são guardiãs da memória, da história e dos bens culturais que a instituição valoriza e protege há quase 90 anos.
Gusmão ressaltou ainda que, embora o Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural seja historicamente reconhecido pela presença de especialistas com destacadas trajetórias acadêmicas, a participação de representantes dos povos tradicionais enriquece os debates ao trazer experiências vividas e perspectivas fundamentais para a compreensão do patrimônio.
Lucely Pio, vice-coordenadora da Rede Cerrado, esteve presente na reunião e comemorou a conquista, resultado de uma espera de 17 anos. Ela também integra a Articulação Pacari, responsável por solicitar, em 2009, o registro das raizeiras junto ao Iphan.
Raizeira do Quilombo do Cedro, em Mineiros (GO), Lucely defende a conservação do Cerrado como condição para a sobrevivência dessa cultura. “Como que eu vou ensinar para o meu neto, para o meu filho, para o meu vizinho? Como que ele vai fazer uma tintura usando a casca do jatobá, se não existe o pé de jatobá?”, questiona ela no dossiê de registro que embasou o processo no Iphan.
O Cerrado abriga cerca de 220 espécies vegetais com propriedades medicinais catalogadas — entre elas o barbatimão e o jatobá — que compõem a farmacopeia popular, conjunto sistematizado de plantas e usos medicinais utilizado pelas raizeiras. Para as detentoras e os detentores desse saber, o bioma é uma extensão da memória coletiva: sem o Cerrado, não há conhecimento a transmitir.
Para Lucely, assim como para outras raizeiras, a devastação do bioma representa não apenas uma tragédia ambiental, mas também a morte de uma identidade, de uma forma de pensar e de cuidar.
Ofício
Nas comunidades onde atuam, raizeiras e raizeiros são guardiãs e guardiões de conhecimentos que combinam técnica, espiritualidade e conservação ambiental. Esses saberes são transmitidos de geração em geração em territórios quilombolas, indígenas, assentamentos rurais e periferias urbanas dos estados que compõem o bioma Cerrado. O protagonismo é majoritariamente feminino. Mães, avós e madrinhas carregam a memória coletiva e exercem o cuidado cotidiano das famílias e comunidades.
A rotina dessas pessoas começa antes mesmo do preparo dos remédios. Ela inclui caminhadas por quintais, matas e veredas para identificar e coletar espécies medicinais, em um processo permeado por valores éticos. Dona Cecília, raizeira do Quilombo São Domingos, em Goiás, por exemplo, ensina aos mais jovens a importância de pedir licença às plantas antes da colheita, respeitando o tempo da natureza para que ela continue a brotar.
Esse aprendizado ocorre nas chamadas caminhadas experienciadas, prática pedagógica desenvolvida pelas próprias raizeiras, na qual o conhecimento é transmitido pelo corpo, pelo cheiro, pelo toque e pela escuta direta do território. Os remédios — garrafadas, xaropes, pomadas, pílulas e chás — são preparados em farmacinhas caseiras ou comunitárias, espaços semelhantes a cozinhas, seguindo critérios rigorosos de higiene física e espiritual.
As farmacinhas comunitárias são, muitas vezes, uma alternativa de atenção à saúde, especialmente em contextos nos quais o acesso aos serviços formais é limitado. Os remédios ali produzidos são comercializados a preços acessíveis ou doados quando a pessoa atendida não pode pagar. Esses espaços também cumprem papel fundamental na transmissão dos saberes tradicionais.
Resistência
O dossiê identifica a criminalização do ofício como uma das principais ameaças à sua continuidade, fenômeno que os pesquisadores definem como epistemicídio: a perseguição sistemática de um conhecimento até seu desaparecimento. Um exemplo é o relato de Dona Francisca, raizeira de Goiânia (GO).
Ela conta que, em 2010, dois policiais à paisana foram até sua casa, fingiram interesse nos remédios produzidos na farmacinha comunitária que mantinha e informaram que havia uma denúncia contra ela. Mesmo apresentando seu diploma do Curso de Boas Práticas, rótulos com a descrição detalhada dos ingredientes e certificados do Sebrae, foi levada à Delegacia do Consumidor para prestar esclarecimentos. Ao ser questionada se sabia que fabricar remédios caseiros era “contra a lei”, respondeu:
“Moço, eu não faço remédio, eu sirvo à comunidade. Isso é porque eu tenho um compromisso com a comunidade que tem muita necessidade que o governo não cuida e eu posso cuidar.”
A história da relatora do processo também guarda profunda ligação com esse saber ancestral. Advogada quilombola do território Kalunga e pesquisadora de direitos territoriais, Vercilene Francisco Dias afirma que “falar sobre o Ofício de Raizeiras e Raizeiros do Cerrado é falar das mulheres que vieram antes de mim”.
Filha, neta, bisneta e tataraneta de raizeiras e raizeiros do Cerrado goiano, ela afirmou que, sem esses ofícios ancestrais de cuidado, seu povo não teria resistido.
Para Vercilene, o reconhecimento vai além da preservação cultural: “Trata-se de afirmar que os conhecimentos tradicionais produzidos pelos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais possuem valor, legitimidade, ciência, ética e espiritualidade.”
* Adaptado de texto publicado em Iphan/Governo Brasileiro.




