Ela tratou as crises de bronquite e pneumonia do filho com plantas medicinais. Ainda criança, cuidava do umbigo de recém-nascidos na comunidade onde morava, no Alto Vera Cruz, em Belo Horizonte.
Aprendeu a lidar com as plantas com a mãe, que, por sua vez, era filha de parteira, raizeira e benzedeira. A avó morreu 15 anos antes de seu nascimento, mas Aparecida Arruda, conhecida como Tantinha, deu continuidade ao legado da família.
Trocou a máquina de costura por um quintal repleto de plantas medicinais e nunca mais se afastou desse caminho. Mineira e raizeira do Cerrado, autora do livro A Raizeira do Cerrado e integrante da construção da Farmacopeia Popular do Cerrado, Tantinha é hoje uma referência entre as raizeiras que atuam no Brasil.
“Eu não sei de onde eu vim, mas o que eu sei é que esse Cerrado me resgatou por inteira. E hoje eu preservo as plantas nativas do Cerrado”, conta em entrevista à Rede Cerrado.
Uma das fundadoras da Articulação Pacari, Tantinha mantém hoje sua própria farmácia viva e comemora o reconhecimento do Ofício das Raizeiras e dos Raizeiros do Cerrado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Ela também esteve presente no 9º RAÍZES (Grande Encontro de Raizeiros, Parteiras, Benzedeiras e Pajés) realizado em maio de 2026, na Chapada dos Veadeiros. O encontro reuniu cerca de 100 mestres da medicina tradicional e promoveu mais de 40 atividades.
Leia a entrevista completa.
Rede Cerrado: Tantinha, encontramos muitas histórias sobre o seu trabalho e vimos que você começou a resgatar os conhecimentos da medicina popular por necessidade. Como foi esse processo, o que motivou essa busca?
Tantinha: Eu comecei, na realidade, porque a minha avó era parteira, raizeira e benzedeira. Minha mãe cuidou de mim a vida toda com as plantas. Minha mãe tinha esse dom, mas eu nasci 15 anos depois que essa avó se foi, então não a conheci. Mas minha mãe repetia todos os gestos que eu aprendi na oralidade, na convivência com ela.
Minha mãe era mãe solo, tinha mais três irmãos e eu cuidava dos irmãos. Lembro que minha mãe trabalhava para uma médica, e a doutora Ana dava medicação para os meninos quando passavam mal. Mamãe substituía, na maioria das vezes, pelas plantas. E eu fui aprender vivendo com aquilo.
Como a mãe era sozinha e eu tinha que cuidar dos irmãos, ela ganhava os neném e eu que curava o umbigo. Então, eu tinha 9, 10 anos e curava o umbigo dos meus irmãos. E aí foram chegando outros meninos na mesma vila onde eu morava e todo mundo começou a me dar confiança para curar o umbigo dos neném.
Essa vivência foi durante toda minha infância, adolescência, até eu me casar. Já estava no segundo filho, morava numa área mais urbana. Tive o segundo filho e ele estava muito doente. Ele tinha crise de bronquite, uma atrás da outra e, logo em seguida, vinha pneumonia. Em seis meses a um ano, ele teve cinco pneumonias.
E aí, um dia, eu vi o padre falando na igreja do curso de plantas medicinais. Então, aquilo despertou na minha cabeça. Eu tinha ido à missa no domingo com minhas duas crianças e fiz a inscrição. Meu filho, na época, tinha seis meses; eu tinha uma de três anos.
Cheguei em casa. Contei para o marido que eu ia fazer um curso para cuidar da saúde do menino. Ele ficou bravo, mas eu já tinha feito a minha escolha, já tinha feito a inscrição e eu segui.
Essa caminhada durou uns seis meses. Eu lembro que o curso acontecia aos sábados. Até quarta-feira ele estava meio mal-humorado, de mal. E quando o clima começava a melhorar, lembrava que no próximo sábado tinha curso. Até que um dia, meu marido veio folhear um dos livros. Eu fiquei feliz de ver ele folheando.
Eu lembro que o primeiro xarope que fiz foi o xarope de umbigo da bananeira, ou da flor da bananeira. Escondia atrás da gaveta da geladeira para dar para a criança, mas ele não aceitava. Falava que estava gastando o que tinha e o que não tinha, que não era mato que ia curar criança.
Então, enfim, essa fase passou. Quando as coisas pareciam que já estavam equilibradas, eu tinha terminado o curso e achei que aquilo ia ficar só naquele cuidado que eu aprendi para cuidar do meu filho.
Aí, meu irmão sofreu um acidente grave e esse frei era fisioterapeuta. Meu marido falou: “Olha, se você leva o frei lá para tirar seu irmão do hospital (que estava sofrendo muito) só para fazer fisioterapia, a gente cuida dele aqui em casa.”
E assim eu fiz. Pedi ajuda ao frei. Já tinha terminado o curso, e ele era quem ministrava. Tiramos o meu irmão do hospital e levamos para casa. E nisso o frei começou a encontrar com meu marido.
Eu acabava passando uma imagem negativa do meu marido para o frei, porque ele me perguntava: “Por que você traz as crianças?” Eu falava: “Se eu não trouxer meu marido não me deixa vir.” E aí acabava passando uma imagem negativa dele.
Mas, enfim, o frei começou a lidar com ele. Chegou o momento em que ele conseguiu resgatar o meu marido e levar ele para o trabalho. No segundo semestre, meu marido já era coordenador desse curso.
Percebi que meu marido estava passando por uma depressão muito grande. Na realidade, ele tinha perdido os rins, fazia hemodiálise e já havia feito o primeiro transplante. Depois, descobriu que não poderia subir de cargo na polícia, e isso o deixou muito deprimido. O frei foi acompanhando e ajudando nesse processo, e o trabalho foi avançando.
E o que você fazia antes?
E o que eu fazia antes? Eu era costureira. Sempre fui costureira. Criei meus irmãos sentada em uma máquina de costura. Fazia de tudo, desde vestido de noiva até outras peças.
Durante um bom período, consegui conciliar a costura com as plantas medicinais. Isso durou até o segundo filho e o fim da gestação do terceiro, quando já se passavam mais ou menos cinco anos.
Até que, um dia, tive que fazer uma escolha: ou eu costurava ou trabalhava com as plantas. Entendi que havia muitas costureiras, mas as plantas representavam um resgate da minha ancestralidade. Eu precisava seguir em frente.
Fiz minha escolha e abandonei as máquinas. Tenho todas elas até hoje, mas estão guardadas. E sigo trabalhando com as plantas medicinais.
Há quanto tempo você trabalha com as ervas medicinais? O que esse caminho transformou na sua vida, tanto pessoalmente quanto na sua relação com a comunidade?
Ele transformou da água para o vinho. Transformou totalmente. Não fui só eu, como toda minha família. A transformação foi, a partir do meu marido sair do quarto e começar a se envolver com os trabalhos.
Chegou um momento de ele dizer que já não podia mais tomar os chás, que ele era transplantado, tomava muita medicação, mas só de lidar com as ervas ele já se sentia curado.
E essa transformação começou a acontecer dentro de casa, principalmente. Primeiro, chega o meu marido um dia com a proposta de melhoria de quintais. Diz que tinha inscrito nosso quintal num projeto de melhoria de quintais. Aí eu fiquei meio assim, resistente, porque éramos cinco famílias que moravam no mesmo lote. Os irmãos casavam e levavam as mulheres para aquele lugar, aquele lote.
E tinha um lugar que era um amontoado de lixo, que era no meio, no centro do lote. Lixo e entulho das obras que não podia jogar na rua, jogava lá dentro daquele entulho. E ele falou: “Vou transformar aquilo numa farmácia viva.”
Tentei ser resistente, mas não consegui. Ele já estava preparado. E o quintal foi transformando, transformando, até transformar numa farmácia viva.
Tem o primeiro livro do Ervanário São Francisco, que foi em 2003, se não me engano, 2002, o lançamento, que a capa dele foi a foto desse quintal que transformou totalmente.
Então, transformou a minha vida e da comunidade nesse primeiro momento, porque todo neném que nascia na comunidade aparecia lá para buscar o cházinho para a criança e para a mãe. Sempre que alguém se machucava, algum acidente, alguma questão, tudo batia na minha porta. Então, virou igual um centro de saúde.
Eu lembro que eu recebi um ônibus de pessoas para fazer um intercâmbio, 40 pessoas. 20 no quintal, porque o espaço não comportava muita gente. Era um quintal de 50 metros quadrados, onde chegamos a catalogar 170 espécies de plantas medicinais. Então, 20 pessoas entravam nesse quintal e as outras 20 na casa. Depois tinha que fazer o inverso para poder conseguir atender essas demandas.
E assim a gente começou a ficar muito conhecido mesmo naquela comunidade, na Rede Local de Desenvolvimento, que a gente falava que era, formamos uma rede local. Eram três bairros mais próximos: Taquari, Granja de Freitas e Alto Vera Cruz.
Os centros de saúde, o centro cultural, o CRAS, as UPAs, tudo conectado. Então, começou a conectar todo esse trabalho numa rede de plantas medicinais e a gente começou a se fortalecer enquanto trabalho mesmo, enquanto coletivo.
Você costuma dizer que o ervanário é a sua “farmacinha caseira”. Como ele funciona hoje? Quem procura esse cuidado por meio do seu trabalho?
O ervanário é a minha farmácia, sabe? É uma farmácia caseira, já bem conhecida, bem divulgada. E a gente vem trabalhando ao longo desses anos com boas práticas.
Eu falo “a gente” porque, mesmo meu marido tendo feito a passagem em 2017, eu sinto a presença dele e a força que a gente conseguiu para seguir adiante nessa caminhada de trabalhar com as plantas medicinais.
Hoje o ervanário não funciona mais naquela casa do Alto Vera Cruz, porque o espaço foi ficando muito compacto. Minhas crianças eram pequenas. A partir do momento que o trabalho foi aumentando, foi crescendo, a gente sentiu necessidade de ter um espaço maior para plantar.
A gente começou a se organizar financeiramente. Eu lembro que aprendi, junto com esse trabalho das plantas medicinais, a cuidar da alimentação. Então, aprendi a fazer um pão integral, de cenoura, pão de abóbora. E aí começaram a aparecer as demandas para uns lanches naturais.
A gente começou a atender cinco pessoas, dez pessoas, 500 pessoas. Então, reuniu a comunidade e começou a trabalhar com lanches naturais, aproveitamento integral dos alimentos e a gerar uma renda. Financeiramente, a gente conseguiu se organizar e comprar um pedacinho de terra.
Atualmente, aqui em Sabará, que é onde eu moro, compramos um pedacinho de terra, mais ou menos em 2009, 2010. E começamos a construir. Compramos meia chácara. É mais ou menos uns dois mil metros quadrados, estreito, mas vai até no finalzinho, onde tinha uma mina que agora já não é tão funcional assim. Mas, de qualquer forma, é um espaço de Cerrado forte mesmo. Primeira parte mais alta, Cerrado, mas chegando no fundo já fica mais úmido e aí aquela vegetação mais de Mata Atlântica.
Então, funciona assim: eu moro nesse espaço. Tem um salão grande agora para receber as pessoas, oferecer cursos, receber visitas de intercâmbio. Tem um quintal com as plantas nativas que eu preservei, todas que encontrei, e introduzi outras, fazendo uma agrofloresta. E esse quintal está sempre em movimento, a gente está cuidando dele.
Tem a farmácia caseira também aqui em Sabará. A casinha lá do Alto Vera Cruz continua. Meu filho mais novo mora lá, mas o quintal só é mantido do jeito que estava antes. Eles não continuaram plantando outras plantas, mas meu cunhado, que mora no mesmo lote, continuou pelo menos preservando o que tinha lá. Ficou o ponto verde lá.
E aqui em Sabará continua, sim, sendo o ponto verde. E o Ervanário São Francisco tem até a localização via satélite. Se você conseguir jogar no GPS, você consegue visualizar a localização aqui em Sabará, Ervanário São Francisco.
Devido à demanda, que é muito grande, da produção dos remédios caseiros que eu levo, eu tenho um estoque lá. Todo sábado eu atendo as pessoas e atendo também presencial aqui no meu espaço.
Eu faço a minha produção até onde dou conta, mas, para demonstrar aquilo que eu faço, ensino todas as receitas que eu faço através de cursos, de oficinas. As pessoas que a demanda me procuram é até onde dou conta também, porque costumam aumentar muito essas demandas. Mas já tenho vários grupinhos que venho capacitando e que já estão também se organizando e dando conta de novas demandas.

Com quantas plantas você trabalha?
Ainda não tenho esse número exato, mas nem quero fechar essa lista, porque, na medida que o tempo vai passando, a gente vai conhecendo novas plantas, valorizando novas plantas e reconhecendo também nativas, às vezes, do quintal.
Mas trabalho principalmente com as do Cerrado e venho introduzindo as outras plantas que são de horta, fazendo uma agrofloresta aqui neste meu espaço.
Pessoas, um público muito diverso até. Mas, na feira onde eu trabalho, que é uma feira orgânica, agroecológica, orgânica, que tem uma demanda muito grande de pessoas de poder aquisitivo bem alto, assim, já é uma feira que já atrai esse público e é bem valorizado o trabalho que a gente faz lá.
É uma feira que a gente trabalha como se fosse uma autorregulação. Somos 30 produtores que resolvemos nos organizar e ter um espaço só para nós trabalhar. Cada um traz o seu produto. O produto: verduras agroecológicas, verduras orgânicas, alimentos sem glúten. Então, assim, todos os tipos de produtos que a gente sabe que encaixa numa boa qualidade de vida, a gente produz e leva para esse espaço.
Normalmente, duas vezes por semana a gente atende nesse local, nesse espaço. E por que a prefeitura, de certa forma, não aceitaria a gente fazer uma feira tão diversa? A feira teria que ser autorizada só para alimentos. Remédio, de forma alguma. A prefeitura ainda não aceita, mesmo a gente estando nessa caminhada de buscar valorizar, buscar trazer política para os nossos direitos.
Mas ainda é um desafio muito grande a questão de vender os remédios. A gente pode atender, doar. Mas vender, quando você começa a vender, parece que já vêm os empecilhos.
Em junho, o Iphan reconheceu o ofício das raizeiras como Patrimônio Cultural do Brasil. O que essa conquista significa para você?
Essa conquista pelo Iphan é uma história bem longa e veio lá do início da nossa caminhada. Então, como eu conto aí, a gente começou em 1994, que foi quando o meu filho era pequeno. E aí a gente nos organizamos enquanto, igual quando eu falo, uma rede local, que você apoiou numa ONG, que era Rede de Intercâmbio de Tecnologias Alternativas.
E aí, dentro desse trabalho todo, nasceu a Articulação Pacari, articulação da qual a gente faz parte até hoje, que incentivou e apoiou na questão da busca desse patrimônio, de tornar patrimônio nosso ofício.
Desde 2006 que a gente vem tentando. Na época, era meu companheiro que viajava mais, que participava dos encontros. Eu ficava em casa porque as crianças eram pequenas, mas eu acompanhava toda, né? A gente sentava, conversava sobre todo o trabalho. Alguns eventos eu conseguia participar e outros era só ele que ia.
E 2006 foi a primeira tentativa. Não deu certo. Depois foram tentando outras vezes e finalmente, em 2022, a nossa articulação, o Iphan, o Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), a Universidade de Brasília (UnB) conseguiram um projeto que juntou essas quatro organizações para a gente tornar realidade esse ofício de raizeiras.
Trabalhamos aí, eu fui uma das escolhidas, eu e Lucely Pio, coordenadora da Rede Cerrado], de Goiás, e eu daqui de Minas. E a gente fez um trabalho muito grande, de fazer levantamento. A gente já conhecia algumas e a maioria das que trabalham por aqui. Uma coisa é conhecer a outra, é a gente conseguir juntar todas elas e mandar para pesquisa do Iphan.

Eles fizeram um levantamento muito grande. A professora Silvia, que estava da UnB, junto com uma outra professora, Sabrina Almeida, mais a professora Silvia, que conseguiu ajudar a gente a ampliar a pesquisa nacional, mas ampliar mais porque ela colocou alguns alunos dela que eram indígenas, outros quilombolas, como bolsistas, para aprofundar a pesquisa dentro das comunidades onde eles vivem.
E tornar patrimônio esse nosso ofício abre muitas portas. Trouxe, assim, um resultado de longa data. E a gente está, assim, em êxtase mesmo. A gente imagina que vai abrir várias portas. Lógico que a gente precisa buscar novas políticas.
Mas a gente não começou só com o Iphan, que tornou patrimônio nosso ofício. Mas nós temos a Farmacopeia Popular do Cerrado, a primeira farmacopeia do Brasil, que também foi um instrumento de muita validade, de muita valia para o nosso trabalho.
Como esse reconhecimento pode contribuir para fortalecer a medicina tradicional brasileira?
Todas as plantas que estão lá na farmacopeia são protegidas pela Lei da Biodiversidade, que é a Lei 13.123. Nenhuma indústria farmacêutica pode produzir nenhum remédio com aquelas plantas que estão na farmacopeia sem repartir benefício com o conhecimento tradicional.
Temos o Protocolo Cultural das Raizeiras do Cerrado. Foi o primeiro do Brasil e veio também para abrir portas para nós. Inclusive, nós conseguimos o assento na Comissão Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais enquanto raizeiras a partir do nosso protocolo.
O nosso protocolo abriu portas. Foi o primeiro do Brasil. Hoje já está abrindo para vários outros segmentos. Indígenas, quilombolas estão fazendo seu próprio protocolo.
São instrumentos políticos que a gente vem trabalhando em articulação para abrir vários caminhos e conseguir buscar. E aí vem ainda agora o reconhecimento do ofício, nosso ofício, de tornar patrimônio. E isso também, para nós, veio assim como um êxtase.
Mas não é para a gente parar por aqui. Vem abrir portas. Lógico que a gente vai continuar buscando políticas públicas. Não é só ganhar o ofício, se tornar patrimônio e contentar. Não.
Além desse reconhecimento, você percebe outros avanços no fortalecimento do trabalho das raizeiras e das Farmácias Vivas dentro das políticas públicas? Como você avalia o cenário atual?
Agora, sim, a gente espera que esse patrimônio abra várias portas, inclusive com a indústria farmacêutica, que vem em cima da gente com peso. Não nos permite trabalhar e comercializar as ervas. É uma perseguição, de certa forma.
A gente vem buscando direitos e, para a gente conseguir, a partir desse patrimônio, abrir outras novas portas, continuar trazendo novos benefícios para nossa ancestralidade e para as plantas medicinais.
A gente agora está com a nova expectativa da Farmacopeia Popular do Brasil, que não vai incluir só plantas, inclusive todos os tipos de terapias, conhecimentos tradicionais, menções, rezas, tradições e vários outros segmentos que a gente vai interferir.
Então, nós estamos já caminhando com essa nova proposta. E assim, não sei se é bom divulgar, mas, de qualquer forma, a gente já está com esse olhar aberto. Depois eu vou perguntar para Clarice se era bom se eu divulgasse isso. Mas é o nosso próximo passo, é o nosso próximo sonho: a Farmacopeia Popular do Brasil.
A gente já está com tudo pronto e abrimos os caminhos para seguir buscando novas políticas.
Para finalizar, você participou do 9º Grande Encontro de Raizeiros, Parteiras, Benzedeiras e Pajés, na Chapada dos Veadeiros. Como foi essa experiência? Quais debates e aprendizados você destacaria desse encontro?
Sobre o evento na Chapada dos Veadeiros, enquanto raizeiras, é o terceiro ano que a gente vai. Atualmente é o terceiro ano que eu participo. Foi muito gratificante.
No primeiro ano, eu fiquei em êxtase, assim, inclusive o Iphan ficou acompanhando a gente e a gente estava naquele processo. Então, eles acompanharam com fotos, com vídeo, gravando para usar nesse patrimônio. E foi muito importante.
Mas aí eu acho que eu abusei demais. Eu voltei até sem voz. Mas foi um trabalho muito grande, muito importante. A gente conhece, lida com vários outros. Na época, acho que era mais de 100 mestres.
No segundo também nós participamos, fazendo oficinas. Quando eu falo “nós”, somos eu e Lucely. Nós fizemos umas oficinas de garrafada tanto no primeiro encontro quanto no segundo, participando de outros debates, de outras falas dentro do encontro todo.
Mas foi muito bom. A maior maravilha é encontrar vários mestres juntos ao mesmo tempo.
Esse último ano foi recentemente, 2 de maio de 2026. A Lucely teve a ideia de a gente não fazer garrafada, de a gente mudar a nossa estratégia e fazer um cuidado com os mestres.
Porque a gente estava entendendo que os mestres estavam trabalhando, cada mestre trabalhando num lugar, e chegava à noite todo mundo cansado. Então, nós resolvemos, a Lucely teve a ideia, de fazer o escalda-pés para os mestres.
Nós ficamos os três dias atendendo à demanda. Desde manhã, a gente atendia até os técnicos que estavam acompanhando e, na parte da tarde, os mestres, depois que terminavam as oficinas.
Foi maravilhoso. Foi uma emoção muito grande, um resgate de ancestralidade, de conhecimento, de tradição, de ouvir. Então, nós conseguimos lidar presencialmente com todos os mestres.
Foi muito profundo. Não tem nem como explicar, sabe? Foi uma questão espiritual, muito profunda, da nossa ancestralidade. Foi valioso demais.
Gosto muito da Daniela e fico feliz de ter feito o empenho de eu ter ido esse ano, porque eu senti que foi financeiramente mais apertado para ela, porque ela não tinha conseguido recurso todo. E, graças a Deus, deu certo e a gente participou. E foi maravilhoso.
Qual sua relação com o Cerrado e o que este bioma significa pra você?
A minha relação com o Cerrado é uma conexão, assim, ou reconexão, que eu não sei explicar. Muito forte.
Inclusive, quando a gente comprou essa chácara aqui, é um relato que eu gostaria de te falar, sim, só para você entender.
Aqui é uma área meio inclinada. Eu desci no quintal afora e trombei numa planta que eu buscava para minha mãe banhar as pernas quando eu era criança. E mamãe falava: “Busca folha-santa, minha filha.”
E aí eu tentava experimentá-las pelo cheiro, porque criança não tem como identificar. Pegava, sentia o cheiro da planta até sentir o cheiro para saber que era aquela que minha mãe buscava. O cheiro dela muito forte chama negra-mina.
E, quando eu desci nesse meu quintal para poder reconhecer as plantas que tinha, uma delas que eu trombei veio o cheiro assim e me botou lá na infância. Aí eu falei: “Estou no lugar certo.”
Sinceramente, eu sentei e chorei de emoção. Então, foi assim, muito gratificante estar de volta.
Eu não sei de onde eu vim, mas o que eu sei é que esse Cerrado me resgatou por inteira. E hoje eu preservo as plantas nativas do Cerrado.

Eu tenho um livro, Ervanário São Francisco, que é a primeira edição, e a segunda edição que eu fiz agora, atualmente, já tem quatro anos, mais ou menos cinco anos. Foi na pandemia, que é o “Ervanário São Francisco de Assis: Memórias, saberes e práticas de uma raizeira do Cerrado”.
A foto da capa do livro são minhas mãos com as raízes do Cerrado. Fico muito feliz de estar nesse lugar, de estar nesse espaço, de estar nessa conquista.
Quando você pergunta se a minha vida mudou, a minha vida transformou. Hoje eu me sinto com o pé no chão, sabe? Sabia quem eu sou, o que eu vim fazer, e dedico a minha vida 100% ao trabalho com as plantas medicinais e o meu Cerrado em pé.
Muito obrigada pela entrevista, Tantinha.




