Os territórios de povos e comunidades tradicionais são hoje uma das principais resistências ao desmatamento no Brasil e, por isso, desempenham um papel estratégico no enfrentamento da crise climática. É o que mostra o 6º Relatório de Povoamento Tô no Mapa, uma iniciativa de automapeamento que reúne dados de 400 comunidades em diferentes regiões do país.
O Tô no Mapa permite que povos e comunidades tradicionais e agricultores familiares registrem, com dados georreferenciados, os limites e usos de seus territórios. A iniciativa é gerida pelo IPAM, o ISPN, a Rede Cerrado e o Instituto Cerrados, e busca suprir lacunas nos registros oficiais, fortalecendo a visibilidade e a defesa desses territórios.
Recém-divulgado, o 6º Relatório do Tô no Mapa reúne dados de 400 comunidades tradicionais e agricultoras familiares distribuídas por 11 estados e 111 municípios, que ocupam mais de 1,3 milhão de hectares de territórios automapeados no país. Essas áreas abrigam cerca de 40,6 mil famílias e estão presentes em quatro biomas, com destaque para o Cerrado, onde se concentra a maior parte das comunidades. O Maranhão lidera em número de registros, com 232 comunidades. O levantamento também evidencia a diversidade desses territórios, com 19 segmentos de povos e comunidades tradicionais representados, e mostra que muitos deles são ocupados há gerações — 37% há mais de 150 anos .
O relatório, que cobre o período entre agosto de 2024 e outubro de 2025, sistematiza essas informações e cruza os dados de automapeamento com bases como o MapBiomas, permitindo analisar o uso da terra dentro e no entorno das comunidades.
Segundo o levantamento, essas áreas mantêm níveis elevados de preservação ambiental. “Os territórios tradicionais automapeados exercem um papel fundamental na conservação ambiental”, afirma o relatório, destacando que cerca de 80% da vegetação nativa nessas áreas está preservada.
A comparação com o entorno revela o contraste. Entre 2023 e 2024, o desmatamento nas áreas ao redor desses territórios foi 16 vezes maior do que dentro deles. Na prática, isso significa que onde há presença de comunidades tradicionais, há maior proteção da natureza.
Essa capacidade de preservação está diretamente relacionada aos modos de vida dessas populações. Diferentemente do modelo de produção em larga escala, predominante fora desses territórios, as comunidades mantêm práticas que combinam uso sustentável da terra e conservação dos ecossistemas. O relatório aponta que, enquanto fora dessas áreas avançam commodities agrícolas como soja, algodão e cana-de-açúcar, dentro dos territórios predominam atividades de menor impacto ambiental.
Mesmo assim, esses territórios enfrentam pressões constantes. A pesquisa mostra que 46% das áreas automapeadas apresentam sobreposição com imóveis rurais, o que gera conflitos fundiários, invasões e ameaças aos modos de vida tradicionais. Em muitos casos, o desmatamento registrado dentro dos territórios está associado à ação de terceiros, que ocupam essas áreas sem autorização das comunidades.
Além disso, o avanço da mineração e da agropecuária no entorno intensifica os riscos socioambientais. Em 2024, foram identificados conflitos com atividades minerárias no entorno de 34 comunidades, e há casos em que a exploração já ocorre dentro dos próprios territórios, ampliando os impactos ambientais e sociais.
Apesar desse cenário, as comunidades seguem atuando como guardiãs da biodiversidade. O relatório destaca que esses territórios podem ser reconhecidos como “Outras Medidas de Conservação Baseadas em Área (OMECs)”, contribuindo diretamente para as metas globais de proteção ambiental estabelecidas em acordos internacionais.
Para os pesquisadores, garantir os direitos territoriais dessas populações é uma medida central tanto para a justiça social quanto para a agenda climática. “As informações produzidas pelas próprias comunidades mostram caminhos claros para o reconhecimento e a regularização territorial”, aponta o documento.
Ao dar visibilidade a esses territórios, o Tô no Mapa também evidencia uma dimensão muitas vezes invisibilizada no debate climático: o papel histórico e contínuo dessas populações na proteção dos biomas brasileiros.




