Encontro de Saberes: mais de 300 mestres do conhecimento tradicional já lecionaram em 28 universidades brasileiras
20 ago 2026
Iniciativa aproxima universidades de mestres e mestras de comunidades tradicionais, povos indígenas e quilombolas, propõe o reconhecimento de outros modos de produzir e compartilhar conhecimento

Teka Potyguara e Lucely Pio são mestras participantes do Encontro de Saberes. Foto: Sergio Velho Junior | Fiocruz Brasília

O diálogo entre conhecimentos tradicionais e acadêmicos foi tema da aula inaugural da Escola de Governo da Fiocruz-Brasília, realizada na terça-feira, 18 de agosto, em Brasília. O encontro contou com a participação da vice-coordenadora da Rede Cerrado, Lucely Pio, e colocou em debate a presença de mestres e mestras de comunidades tradicionais, indígenas, afro-brasileiras, quilombolas e de terreiro no ambiente universitário.

Com o tema “Encontro de Saberes”, a aula reuniu o professor da Universidade de Brasília (UnB) e idealizador da iniciativa, José Jorge de Carvalho; a liderança indígena Teka Potyguara; a antropóloga Ana Gretel, pesquisadora em Saúde Coletiva vinculada à Fiocruz Brasília; e a quilombola Lucely Pio.

A atividade foi aberta pela diretora executiva da Escola de Governo da Fiocruz-Brasília, Luciana Sepúlveda, que defendeu uma compreensão ampliada da saúde como potência de vida. “É preciso seguir refletindo sobre esse olhar mais amplo de saúde”, afirmou. Segundo ela, “é impossível ter saúde sem boa relação entre pessoas e meio ambiente. É impossível ter boa saúde plena com violência, desrespeito, sem trabalho, moradia, saneamento, dignidade”.

Diretora executiva da Escola de Governo da Fiocruz-Brasília, Luciana Sepúlveda. Foto: Sergio Velho Junior | Fiocruz Brasília

Especialista em plantas medicinais, Lucely Pio destacou a importância de aproximar os mestres e mestras dos conhecimentos tradicionais do ambiente acadêmico. Para ela, é fundamental encontrar “pessoas honestas e sérias que possam estar junto com a gente”. “Nós também somos pesquisadores, também fazemos ciência”, afirmou.

Lucely atua como raizeira desde 1985 — ofício reconhecido pelo Iphan, em 2026, como patrimônio cultural imaterial do Brasil. Natural da comunidade quilombola do Cedro, em Mineiros (GO), ela mantém desde 1998 um centro de plantas medicinais, uma “farmácia viva”.

Sua trajetória na universidade começou em 2002, a convite da professora Laila Espíndola, da UnB. Na instituição, participou de um curso de Fitoterapia em um laboratório farmacêutico. No ano seguinte, conheceu o professor José Elias de Paula, com quem passou a coletar e catalogar centenas de plantas do Cerrado.

Em 2010, a partir do contato com o professor José Jorge de Carvalho, Lucely passou a integrar a iniciativa Encontro de Saberes e tornou-se professora universitária, ministrando a disciplina “Encontro de Saberes” para estudantes de diferentes cursos.

Desde então, sua atuação também se ampliou para a implementação da iniciativa em outras universidades do país. Atualmente, Lucely acompanha José Jorge nesse processo. Pelo menos 28 instituições já incorporaram o Encontro de Saberes a disciplinas regulares, como UnB, UFMG, UFJF, UFSB, UFPA, UFRGS e UFF, com mais de 300 mestres e mestras participando da iniciativa.

Do objeto de pesquisa a sujeitos da própria história

Pedagoga e liderança indígena, Teka Potyguara destacou que povos indígenas foram, durante muito tempo, colocados na condição de objetos de pesquisa. Agora, a partir de uma parceria com a Fiocruz Ceará, onde está localizado seu território, no semiárido do município de Monsenhor Tabosa (CE), ela afirma que agora “somos senhores da nossa história”.

A iniciativa Ser Povos, da Fiocruz, tem como objetivo produzir conhecimento em parceria com comunidades indígenas para contribuir com a garantia do direito à saúde.

Mediadora da aula inaugural, Ana Gretel definiu o Encontro de Saberes como uma “ação afirmativa epistêmica”. “Se as cotas transformaram a identidade da universidade, o Encontro de Saberes coloca uma pergunta: quais conhecimentos acessam eles?”, questionou a antropóloga.

Segundo ela, os saberes tradicionais que chegam às universidades são transreferenciais e atravessam as fronteiras estabelecidas pela divisão das disciplinas acadêmicas.

Aula inaugural realizada no auditório da Fiocruz-Brasília com participação das mestras Teka Potyguara, Lucely Pio, do professor José Jorge, da UnB, e da antropóloga Ana Gretel, da Fiocruz. Foto: Sergio Velho Junior | Fiocruz Brasília

Também presente na mesa, o idealizador do Encontro de Saberes, professor José Jorge de Carvalho, explicou que a iniciativa leva mestres e mestras para as universidades para atuar tanto na graduação quanto na pós-graduação. Os participantes recebem remuneração equivalente à de docentes convidados ou substitutos.

José Jorge destacou ainda que a UnB foi fundada a partir de um programa inovador, baseado na integração de saberes, na pesquisa aplicada aos problemas nacionais e na flexibilidade curricular. “Precisou de 50 anos para enraizar a UnB no seu programa”, argumentou.

Na plateia, o recém-aprovado professor da UnB em Planaltina, Rafael Moreira Serra da Silva, compartilhou sua própria trajetória. Ele foi um dos primeiros estudantes a ingressar na universidade por meio das cotas, em 2005, e, posteriormente, passou a atuar com José Jorge no Encontro de Saberes, primeiro como monitor e depois como pesquisador bolsista.

Professor da UnB, Rafael Moreira Serra participou das primeiras turmas do Encontro de Saberes. Foto: Sergio Velho Junior | Fiocruz Brasília

Segundo Rafael, a iniciativa teve papel fundamental em sua formação. Sua trajetória sintetiza uma das dimensões centrais do projeto: a transformação da universidade pela entrada de novos sujeitos e também pela ampliação dos conhecimentos reconhecidos e legitimados no espaço acadêmico.