Articulação em rede fortalece luta do povo Kalunga por território e direitos
6 abr 2026
Em entrevista, presidente da Associação Quilombo Kalunga destaca a força da união entre povos tradicionais e avalia cenário político: “A gente tenta proteger o território como um leão protege seus filhotes”

Maior quilombo do Brasil, o território Kalunga fica localizado próximo ao Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros e a 300km de Brasília. Foto: Reprodução/Rede Cerrado

Defesa do território, fortalecimento coletivo e incidência política são os pilares que orientam a atuação da Associação Quilombo Kalunga (AQK) em sua articulação com a Rede Cerrado. Em meio a desafios históricos, como a pressão da mineração e a luta pela regularização fundiária, lideranças quilombolas reforçam a importância da atuação em rede para ampliar vozes e garantir direitos.

No início de março, a Rede Cerrado esteve no território quilombola Kalunga, em Goiás, com o objetivo de estreitar laços e construir alianças em defesa dos territórios tradicionais. A visita incluiu passagens por comunidades como o Engenho II e o Vão de Almas, onde a comitiva conheceu de perto experiências locais e dialogou com moradores sobre organização comunitária e desafios políticos.

No Engenho II, o destaque foi o turismo de base comunitária (TBC), que tem se consolidado como uma estratégia eficaz de proteção territorial. Ao promover o uso sustentável do território, a iniciativa contribui para conter o avanço de ameaças como a mineração, ao mesmo tempo em que gera renda e fortalece a permanência da juventude na comunidade. Já em Vão de Almas, a escuta ampliada permitiu compreender a dinâmica de governança local e os principais entraves enfrentados pelos moradores.

“A ideia foi ouvir a voz deles, entender como se organizam, para que a gente consiga um alinhamento maior. Nosso papel é fortalecer a autonomia do território, não sobrepor nada”, afirmou Ingrid Martins, secretária-executiva da Rede Cerrado, destacando a importância de uma atuação construída de forma respeitosa e coletiva.

A aproximação entre a AQK e a Rede Cerrado também se fortaleceu institucionalmente no mesmo período. Em março, a associação foi uma das 17 novas organizações aprovadas pela Assembleia Geral Ordinária para integrar a rede, ampliando a articulação com outros povos e comunidades tradicionais.

Para Carlos Pereira, presidente da AQK, esse processo representa tanto um momento de celebração quanto de fortalecimento político. Ele destaca que a Rede Cerrado possibilita o diálogo com diferentes segmentos, como indígenas, ribeirinhos, caiçaras e quilombolas, e amplia o acesso a espaços estratégicos, como ministérios e o Legislativo.

“Junto com a Rede, a gente tem maior facilidade para dialogar com a galera da pauta ambiental”, afirma.

Segundo ele, a atuação conjunta é fundamental diante das ameaças enfrentadas pelo território Kalunga, especialmente o avanço de interesses minerários. 

Além da incidência política, a participação na Rede também abre caminhos para iniciativas de geração de renda e visibilidade, como por meio do Encontro e Feira dos Povos do Cerrado. A comunidade Kalunga já projeta ampliar sua presença nas próximas edições, com espaços voltados à comercialização de seus produtos.

Presidente da AQK, Carlos Pereira (de azul), ao lado de representantes da Rede Cerrado e da Associação Quilombo Kalunga (AQK) durante imersão no território em Goiás. Foto: Reprodução/Rede Cerrado

Criada com o objetivo central de garantir a titulação do território Kalunga, a AQK atua hoje em diversas frentes, da regularização fundiária ao acesso a direitos básicos, como saúde, moradia e crédito para as famílias, além de desempenhar papel importante na proteção do território e no fortalecimento da autonomia das comunidades.

Foi nesse contexto de escuta, articulação e fortalecimento institucional que a Rede Cerrado conversou com Carlos Pereira, uma das principais lideranças do território Kalunga. Na entrevista a seguir, ele fala sobre a importância da articulação com a rede, os avanços e desafios na luta pela titulação das terras, o papel do turismo de base comunitária na defesa do território e sua avaliação política sobre os últimos governos.

Leia na íntegra.

Rede Cerrado: Carlos, qual é a importância de estar aqui com a Rede Cerrado?

Carlos Pereira: É um momento de muita alegria celebrar com a Rede Cerrado, estar juntos com outras organizações e associações que compõem a rede, com povos de outros segmentos, como ribeirinhos, caiçaras, indígenas, outros quilombolas, para defender juntos o território. A questão política também é importante, já que a Rede Cerrado tem abertura em ministérios e no legislativo. Junto com a Rede, a gente tem maior facilidade para dialogar com a galera da pauta ambiental.

O que vocês esperam construir juntos?

A gente sofre muito com assédio de mineração para dentro do território. Então, com a Rede, não vamos estar sozinhos nessa luta e defesa de todo o território. Queremos nos fortalecer com as demais organizações. A maior alegria é poder dizer que estamos juntos, que vamos fortalecer cada vez mais, que podem contar com a gente, com nossa expertise, e nós também vamos contar com a de vocês. A abrangência da Rede Cerrado é grande, seja politicamente, seja pra espalhar a notícia. Junto, a gente se fortalece. Em relação ao Encontro e Feira dos Povos, vamos querer estar juntos no próximo com espaço para comercialização de produtos Kalunga. 

Roda de conversa na comunidade Vão de Almas, território Kalunga, sobre organização comunitária e desafios políticos. Foto: Reprodução/Rede Cerrado

Fale um pouco sobre o trabalho da AQK (Associação Quilombo Kalunga).

Nosso pilar maior, o foco principal para que ela foi criada, é a titulação do território. A gente busca a regularização fundiária. Ainda acabamos servindo como ponto de apoio para cobrar questões de saúde, como picada de cobra, queda, vacina, porque as famílias aqui recorrem a nós, e também para proteção do território. Buscamos projetos para as famílias se estruturarem enquanto território. A gente busca moradia pras pessoas, apoio de créditos pras famílias. Temos embates políticos, não só na defesa do povo Kalunga, mas de todo o povo brasileiro. Não é só questão ambiental, mas cultura, território, conhecimento das pessoas. A gente tenta proteger como um leão protege seus filhotes.

E a questão do turismo de base comunitária, como ele acontece e quem é responsável por isso?

O Turismo de Base Comunitária é uma fonte que a gente defende e cultiva para que seja ganha-ganha para todos da comunidade. A Associação Kalunga Comunitária Engenho II (AKCE) é a associação de turismo no território da comunidade do Engenho II. Ela é a responsável por essa atividade. Já nos demais territórios, como Vão do Moleque e no Complexo do Prata, são responsáveis as associações locais em parceria com a AQK. 

Como a AQK se posiciona politicamente?

A gente não se liga a partido. As pessoas individualmente podem ter partidos, mas a associação em si não. O governo passado [Bolsonaro] foi um desmonte, uma opressão contra o nosso território, com uma questão de mineração muito grande contra o povo Kalunga. No governo atual, temos tido alguns avanços. Tanto que semana passada tivemos novos territórios titulados. O povo não precisa sofrer 40 anos para ter um metro de terra. É um governo que tem uma preocupação com a classe trabalhadora, ainda que seja muito poroso. Queríamos algo mais rápido. Mas é o único governo que possibilita uma aproximação com o povo preto, pobre e quilombola.