Cerrado mineiro é palco de encontro internacional liderado por povos tradicionais do bioma com participação de relator da CIDH 
20 maio 2026
Com participação do relator da CIDH Javier Palummo, em visita promocional ao Brasil, encontro busca ampliar a incidência internacional dos povos e comunidades tradicionais do bioma

Povos e comunidades tradicionais denunciam o avanço do agronegócio sobre o Cerrado e alertam para o aumento da destruição ambiental, das violações territoriais e da violência no campo. Foto: Adriano Gambarini/WWF-Brasil

Uberlândia, 20 maio (2026) – O Cerrado brasileiro será palco, entre os dias 21 e 23 de maio, de um encontro internacional que busca fortalecer a presença dos povos e comunidades tradicionais (PCTs) do bioma nos debates globais sobre clima, território e direitos humanos.

Realizado na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), em Minas Gerais, o encontro “Cerrado no Mundo: Territórios, Direitos e Vozes em Incidência Global” reunirá cerca de 50 lideranças indígenas, quilombolas, povos de matriz africana, organizações e especialistas ligados às agendas de clima, território e direitos humanos.

O relator especial da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), Javier Palummo, participa do encontro como parte de uma visita promocional da Relatoria Especial sobre Direitos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais (REDESCA/CIDH), vinculada à Organização dos Estados Americanos (OEA).

Maria Gabriely Marcelino da Cunha, liderança indígena do Território Buriti, no Mato Grosso do Sul, afirma que espaços como as conferências climáticas da ONU e fundos internacionais debatem o futuro da biodiversidade “sem ouvir quem de fato protege esses territórios”.

“Para as comunidades tradicionais, estar no centro das decisões globais significa deixar de ser apenas estatística ou ‘objeto de estudo’ e passar a ocupar um lugar como sujeito político ativo”, defendeu Marília Gabriely.

Agente ambiental indígena, representante da juventude Terena e integrante do Comitê Indígena de Mudanças Climáticas (CIMC), Marília Gabriely. afirma que os povos do Cerrado rompem estereótipos quando assumem suas próprias estratégias de comunicação. “Passamos a disputar o imaginário público de forma soberana”, disse.

Reconhecido como o “berço das águas”, o Cerrado perdeu mais de 40 milhões de hectares de vegetação nativa nas últimas décadas. Povos e comunidades tradicionais denunciam que o avanço do agronegócio, das monoculturas e de grandes empreendimentos intensifica a destruição ambiental e amplia violações territoriais, insegurança alimentar e violência contra comunidades.

“Mesmo participando de alguns espaços nacionais e internacionais de tomada de decisão, as comunidades tradicionais ainda estão longe dos espaços centrais onde se decide sobre clima, território e direitos”, defendeu Maria de Jesus Alves Macedo, coordenadora do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB).

Maria de Jesus, de São Luís Gonzaga (MA), destacou que proteger o Cerrado significa defender diariamente “os corpos-territórios diante do avanço do agronegócio, das derrubadas e da destruição das florestas nativas”.

Também participam das mesas de diálogo Rodrigo Deodato, responsável (desk) por Povos Indígenas no Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), representantes do governo federal, organizações indígenas, movimentos tradicionais, universidades e instituições internacionais. Entre eles estão a deputada federal Dandara Tonantzin; Alexandre Pires, diretor de Combate à Desertificação do Ministério do Meio Ambiente (MMA); Diego Soares, professor da Universidade Federal de Uberlândia (UFU); Gustavo Malacco, da Angá – Conservação do Cerrado; Hiparidi Top’Tiro, do MOPIC/Rede Cerrado; Dinamam Tuxá, da APOINME e da APIB; Iolê Terena, representante do Ministério dos Povos Indígenas; Fábio Martins, da Rede Cerrado; Ialorixá Fabiana, da Nação Jeje Mahi (Quilombo Manso); e Paulo Lugon, do Europa Brazil Office (WBO).

A deputada Dandara destacou a importância de fortalecer mecanismos de proteção aos povos tradicionais.

“Garantir a escuta e a participação efetiva dos povos e comunidades tradicionais é fundamental. Por exemplo, quando falamos deste mega data center que deve ser instalado aqui em Uberlândia, se ele fosse um bairro da cidade, seria  o  maior consumidor da cidade, sozinho, consumiria mais água que muitos bairros. O Brasil precisa de soberania digital, precisamos proteger nossos dados, mas isso não pode ser feito em cima do direitos daqueles que constroem esse país”, indicou. 

Os debates estarão centrados nos Direitos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais (DESCA) e em como instrumentos internacionais de direitos humanos podem fortalecer a proteção dos territórios tradicionais do Cerrado. Direito ao território, consentimento prévio, livre e informado ao meio ambiente saudável, à participação política e à proteção das culturas e modos de vida tradicionais estão entre os temas de debate.

“Proteger o Cerrado significa proteger a água, a terra e as comunidades que historicamente cuidam desse território”, afirmou Carolina Martini, da Ambiente e Educação Interativa, co-organizadora do encontro.  

Segundo Martini, os povos e comunidades tradicionais são os verdadeiros guardiões do Cerrado e precisam ocupar um lugar central nos debates sobre conservação ambiental e justiça climática.

“Buscamos fortalecer essas lideranças, valorizar os conhecimentos tradicionais e ampliar a visibilidade internacional das vozes que protegem o bioma”, concluiu.

Para Ingrid Silveira, secretária executiva da Rede Cerrado, “os povos do Cerrado precisam ocupar os espaços internacionais de decisão política não apenas como convidados, mas como protagonistas das soluções climáticas”.

O evento é resultado de um esforço conjunto entre a AMEDI, a Rede Cerrado, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e da Aliança Brazil Office.