A nação A’uwẽ, conhecida como Xavante, vive entre o luto e a luta após a morte do jovem Lucas Owa’u, da TI Sangradouro, aos 46 anos, na quarta-feira, 7 de maio. Poucos meses antes, outra liderança Xavante havia sido vítima de um acidente de trânsito: o cacique Silvério Tsereburã Tserenhib’ru, da TI Areões, morreu aos 37 anos.
Pertencentes a terras indígenas diferentes, mas integrantes do mesmo território Xavante, ambos eram referências para o povo A’uwẽ e importantes vozes contra empreendimentos que ameaçam o modo de vida tradicional no território, conhecido por eles como Ró.
Um dos empreendimentos é a Ferrovia de Integração do Centro-Oeste (FICO/EF-354), trecho de um projeto mais amplo, a Ferrovia Transoceânica, que quer ligar o Atlântico ao Pacífico para escoar commodities agrícolas, como soja e milho, para portos de exportação.
O traçado da FICO, que liga Mara Rosa (GO) a Vilhena (RO), atravessa a TI Areões e áreas próximas às terras indígenas Pimentel Barbosa, Parabubure e Marechal Rondon. Com 1.534 quilômetros previstos e 39% das obras concluídas, segundo a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), a FICO é executada pela mineradora Vale S.A. após acordo firmado em 2020 para renovação antecipada de concessões ferroviárias.
Apresentada pelo governo e pelo agronegócio como estratégica para a logística do Centro-Oeste, a obra é alvo de críticas de povos indígenas e comunidades tradicionais afetadas pelo empreendimento. Outras terras indígenas como Xingu e Waujá também devem ser afetadas, já que o traçado da ferrovia pretende passar a menos de 1 km das TIs Enauene-Nauê, Pareci, Mynky e Manoki.


“Reivindicamos ao governo a revisão do processo da ferrovia, que tem gerado conflitos internos entre o povo Xavante”, afirmou Lucas Owa’u durante sua última visita a Brasília, no Acampamento Terra Livre, em abril de 2026.
Com Lucas à frente, a Associação Warã apresentou à Funai e ao Ministério dos Povos Indígenas um conjunto de propostas, dando continuidade à mobilização liderada anteriormente pelo cacique Silvério Tsereburã Tserenhib’ru:
– realização de estudos para a criação de corredores ecológicos e territoriais entre as Terras Indígenas impactadas;
– criação de um corredor de ligação entre as TIs Pimentel Barbosa e Areões;
– desvio do traçado da ferrovia para fora do território A’uwé Xavante;
– abertura de diálogo efetivo com os povos afetados;
– consulta livre, prévia e informada.
Outras obras também ameaçam o território, como o asfaltamento da rodovia BR-080 e a previsão de construção de pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) no rio das Mortes, curso sagrado que delimita as terras A’uwẽ.
Para o povo Xavante, o conflito em torno da FICO não começou agora. A disputa atravessa décadas e remonta ao período em que Lucas e Silvério ainda despontavam como futuras lideranças de seu povo.

Lobby contra a demarcação
Era o início dos anos 2000, quando o Governo Federal avançava na implementação de dispositivos da Constituição Federal de 1988 — entre eles o artigo 231, que reconhece os direitos originários dos povos indígenas sobre as terras tradicionalmente ocupadas.
Em 31 de março de 2003, porém, o então governador de Mato Grosso, Blairo Maggi, um dos principais nomes do agronegócio brasileiro e ligado às empresas Amaggi e Grupo Bom Futuro, manifestou-se contra novas demarcações em documento enviado ao então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos. “As terras já demarcadas são mais do que suficientes para atender às necessidades [dos povos indígenas]”, defendeu Maggi na ocasião.
Como consequência, o processo de demarcação da Terra Indígena Areões — principal área afetada pelo traçado da ferrovia — permaneceu arquivado até 2025, quando o cacique Silvério Tsereburã Tserenhib’ru conseguiu retomar o processo.
Silvério, que também atuava como secretário de assuntos indígenas da prefeitura de Nova Xavantina (MT), morreu em 3 de dezembro de 2025 quando o carro em que dirigia, um Fiat Uno da prefeitura, bateu de frente com uma carreta bitrem carregadora de grãos. Ele transitava pela BR-158, logo após uma reunião em Areões com a Defensoria Pública da União, a Funai e a Infra S.A., empresa responsável pela construção da ferrovia, ocasião em que se posicionava mais uma vez contra o empreendimento.

A fatalidade que matou Silvério dialoga diretamente com um dos alertas apresentados no estudo do componente indígena elaborado durante o licenciamento ambiental da FICO, iniciado em 2009 no âmbito do Ibama e da Funai: o aumento do tráfego na BR-158 e outras rodovias próximas aos territórios Xavante.
“Estas rodovias [entre elas a BR-158] receberão um considerável incremento no seu tráfego atual. E tais rodovias, como se demonstrará, possuem passivos ambientais sérios para com o povo Xavante.”
O estudo, elaborado pelo antropólogo Gilberto Azanha e publicado em 2013, também apontava outros impactos para o Ró, como a perda de áreas tradicionais para caça, pesca e coleta, aumento da especulação imobiliária, pressão sobre o território e crescimento dos conflitos entre Xavantes e não indígenas. Ao final, o parecer considerava o projeto inviável, posição apoiada pelas aldeias naquele ano.
Apesar disso, a Funai manifestou-se, em 2014, pela “ausência de óbices” à emissão da Licença Prévia pelo Ibama. Em 2020, o Ibama concedeu a Licença de Instalação com concordância do Iphan. Em 2021, houve ainda a transferência de titularidade para a mineradora Vale S.A., que passou a controlar a construção da estrada de ferro.
Na ocasião, o Ibama chegou a emitir parecer técnico dispensando a consulta livre, prévia e informada (CLPI) ao povo Xavante, sob o argumento de que a Funai havia sido consultada.
Colonização do Mato Grosso
O processo de ocupação do Centro-Oeste brasileiro ajuda a explicar o conflito atual entre o povo Xavante e a FICO. Intensificada durante a ditadura militar, especialmente a partir da década de 1960 com o Programa de Desenvolvimento do Centro-Oeste (Prodoeste), a expansão agropecuária avançou sobre territórios indígenas em Mato Grosso.
O Serviço de Proteção aos Índios (SPI), órgão precursor da Funai, atuou na chamada “pacificação” dos Xavante para liberar terras à expansão da monocultura e incorporá-los como mão de obra rural, segundo informações do Mapa de Conflitos da Fiocruz.
Comunidades indígenas perderam territórios, submetidos a expulsões e deslocamentos forçados. A ocupação abriu caminho para a grilagem de terras e para conflitos fundiários que persistem até hoje. Em março de 2024, por exemplo, um ancião Xavante foi detido por fazendeiros e entregue à Polícia Militar do estado de Mato Grosso enquanto pescava em uma área próxima à aldeia Serra Nova, na TI Areões, em Água Boa (MT), permanecendo por horas na delegacia sem acesso a comida ou água.
Embora parte das terras Xavante esteja demarcada, lideranças reivindicam a ampliação dos limites reconhecidos pelo Estado para incluir áreas consideradas tradicionais e historicamente ocupadas pelo povo A’uwẽ, como locais de rituais, cemitérios e sítios arqueológicos.
É justamente sobre parte dessas áreas ainda não reconhecidas oficialmente que incide o traçado projetado da FICO, comprometendo reivindicações históricas do povo Xavante. Segundo levantamento da Sociedade de Antropologia das Terras Baixas da América do Sul (SALSA), apenas a ferrovia pode impactar cerca de 31 mil indígenas de mais de 20 povos, atingindo 24 Terras Indígenas na Amazônia Legal.
Em ofício enviado a ministérios, ao Ibama, à Funai e à Infra S.A., o defensor público federal Renan Sotto Mayor apontou violação ao direito à Consulta Livre, Prévia e Informada (CLPI) e cobrou medidas para garantir a proteção territorial do povo Xavante e a continuidade da demarcação da TI Areões.
“Como reconhecido pelos indígenas, a atual problemática fundiária decorre de ato exclusivamente imputável ao Estado brasileiro, que deixou de concluir a demarcação devida à época, constituindo verdadeira dívida histórica para com o povo A’uwẽ Xavante.”

Agora, sem Lucas Owa’u e Silvério Tsereburã Tserenhib’ru, a mobilização contra a FICO segue marcada pela ausência de duas de suas principais lideranças. Para Hiparidi Toptiro, liderança Xavante e tio de Lucas, o impacto ultrapassa o campo político.
“Pensar em realizar a Assembleia da Warã ou levar nossa delegação para as mobilizações do movimento indígena sem a presença do Owa’ü é sentir um vazio muito grande. Não somente um vazio político e organizacional, mas também um vazio de sangue, de família, de convivência e de caminhada coletiva. Hoje sentimos que perdemos um dos alicerces da Warã.”
Entre o luto pelas perdas recentes e a luta pela defesa do Ró, o povo A’uwẽ Xavante afirma que seguirá resistindo ao avanço dos empreendimentos sobre seus territórios tradicionais.
* Texto por Camila Araujo, Coordenadora de Comunicação da Rede Cerrado.




