Vozes do território: mulheres indígenas ampliam liderança e participação política
8 mar 2026
Representantes dos povos Kunakalo, Haliti Paresi, Karajá e Xavante relatam como mulheres têm ampliado sua participação política e fortalecido a defesa dos territórios em Mato Grosso

Mulheres Xavante na 8ª Assembleia da Federação das Organizações e Povos Indígenas do Mato Grosso (FEPOIMT). Foto: Camila Araujo/Rede Cerrado

Em diferentes territórios de Mato Grosso, mulheres indígenas têm ampliado sua presença nos espaços de decisão, nas assembleias comunitárias e nas articulações políticas de seus povos. Ao mesmo tempo em que mantêm saberes tradicionais ligados ao cuidado com a terra, as sementes e a medicina ancestral, elas também disputam novos lugares de liderança. Para essas mulheres, a luta por direitos, igualdade e voz política está profundamente ligada à defesa do território, da cultura e da vida.

Para compreender melhor esse contexto, conversamos com representantes dos povos Karajá, Xunakalo, Haliti Paresi e Xavante, presentes no estado de Mato Grosso.

Iranildes Matikaia, também conhecida como Vera, do povo Bakairi, integra a regional Cerrado-Pantanal da Federação dos Povos e Organizações Indígenas de Mato Grosso (FEPOIMT). Ela participou da última assembleia que reelegeu sua sobrinha, Eliane Xunakalo, para a presidência da organização — uma referência feminina entre os povos indígenas do estado.

Na gestão anterior, Vera atuou como conselheira fiscal da FEPOIMT e, atualmente, é uma das coordenadoras do Movimento de Mobilização dos Povos Indígenas do Cerrado (MOPIC).

“As mulheres indígenas do Cerrado trabalham com artesanato, sementes e raízes medicinais. A semente do pequi, por exemplo, vira maracá; a fibra do buriti vira rede; a semente de buriti é usada para fazer colares. Já as raízes são utilizadas para tratar tosses, dores de cabeça e para banhos medicinais”, explica.

“São muitas coisas boas que existem dentro do Cerrado. Por isso a gente cuida bem: é a nossa casa, nossa mãe, de onde tiramos nossos alimentos.”

Iranildes Matikaia, coordenadora da MOPIC, ao lado de Altair de Souza (CEPPEC) e Adalberto Souza (Rede Cerrado), em reunião do Conselho Político da Rede Cerrado. Foto: Camila Araujo/Rede Cerrado

Questionada sobre o papel das mulheres na sociedade, ela afirma que é fundamental que elas falem por si mesmas e busquem aquilo que desejam para suas vidas. “As mulheres precisam se empoderar, porque muitas vezes somos silenciadas.”

Em 2026, o MOPIC realizará uma assembleia para eleger sua nova coordenação-geral, disputa da qual Iranildes pretende participar.

“Quero concorrer porque nós, mulheres, precisamos estar de igual para igual com os homens. Assim como também devem estar a juventude e as crianças. Precisamos fortalecer nosso povo dentro do território, inclusive na luta pela nossa saúde.”

Para Vânia Haliti Paresi – ou Neudvania Onaezokenazokaerose, como é seu nome na língua de seu povo –, pedagoga intercultural e mestre em Educação e Contexto Indígena, moradora da Terra Indígena Paresi, em Tangará da Serra (MT), é importante que as mulheres assumam posições de liderança — não para serem “maiores” que os homens, mas para caminhar lado a lado.

“No meu povo, estamos conquistando cada vez mais espaços. Temos professoras, enfermeiras e até cacicas. Antes não tínhamos isso”, explica a pedagoga.

A pedagoga intercultural Vania Paresi em frente a uma casa tradicional de seu povo, na aldeia Quatro Cachoeiras, TI Utiariti (MT). Foto: Camila Araujo/Rede Cerrado 

“As mulheres do meu povo buscam esse espaço para somar com a comunidade e com a base, não para ser melhores que ninguém. Antigamente não era assim. O papel da mulher indígena era cuidar da casa, da família e do marido.”

Iboré Hatamaru Karajá, da Terra Indígena São Domingos, em Luciara (MT), é presidente do conselho local de saúde indígena e uma das representantes das mulheres de seu povo.

“Hoje nosso trabalho tem sido trazer mais mulheres para os espaços de decisão. Estamos mostrando para elas que não precisam ter medo e que podem ter voz ativa”, afirma.

Segundo ela, é preciso enfrentar situações de violência dentro das comunidades. “Violência não é cultura. Se somos agredidas dentro da terra indígena, precisamos comunicar. É isso que estamos tentando levar para dentro do território.”

Iburé Karajá, presidente do Conselho Local de Saúde Indígena da TI São Domingos, Luciara (MT). Foto: Camila Araujo/Rede Cerrado

No povo Xavante, Indiana Dumhiwe é uma das lideranças à frente do movimento de mulheres. Nascida no território Parabubure, em Nova Xavantina (MT), ela cresceu na área urbana do município, mas sempre manteve vínculos com o território.

Formada em Administração, hoje dedica seu trabalho à articulação do movimento de mulheres de seu povo.

“A participação das mulheres em movimentos e assembleias tem aumentado, o que também desperta curiosidade sobre como funciona o jogo político indígena e como essas informações chegam às aldeias”, explica.

Por outro lado, ela observa que muitas vezes há dificuldades, e até falta de respeito, quando mulheres são convidadas a participar de mobilizações fora do território sem compreender plenamente do que se trata.

“Procuro observar especialmente como essas informações chegam ao território, principalmente para as mulheres. Vejo falta de respeito dos dois lados: tanto da sociedade não indígena quanto dentro do meu próprio povo”

Indiana Dumhiwe, mulher Xavante do território Parabubure, em Nova Xavantina (MT). Foto: Camila Araujo/Rede Cerrado

Apesar dos desafios — que vão desde o machismo dentro e fora das comunidades até as dificuldades de acesso à informação e aos espaços de decisão —, as mulheres indígenas seguem abrindo caminhos. Seja no artesanato, na educação, na saúde ou na política, elas reafirmam que a luta feminina também é uma luta coletiva pela preservação do território, da cultura e do futuro de seus povos.

Apesar dos desafios — que vão desde o machismo dentro e fora das comunidades até as dificuldades de acesso à informação e aos espaços de decisão —, as mulheres indígenas seguem abrindo caminhos. Seja no artesanato, na educação, na saúde ou na política, elas reafirmam que a luta feminina também é uma luta coletiva pela preservação do território, da cultura e do futuro de seus povos.