Entre os dias 27 e 28 de fevereiro, em Brasília (DF), a Rede Cerrado deu um passo decisivo em sua trajetória ao realizar o primeiro encontro presencial do recém-criado Conselho Político (CP). A instância nasce com a missão de fortalecer o debate estratégico, qualificar o direcionamento político e promover maior alinhamento interno diante dos desafios crescentes enfrentados pelo bioma e por seus povos.
A criação do Conselho é resultado de um processo amadurecido ao longo do tempo. Segundo Jaime Siqueira, coordenador da Rede Cerrado, a proposta vinha sendo construída há anos. A composição final contempla dois representantes por núcleo regional — um por estado —, além de quatro indicações da coordenação geral. O objetivo, segundo Siqueira, é assegurar a representatividade e suprir lacunas onde organizações estratégicas ainda não estejam formalmente integradas à Rede.
“A reunião de instalação foi importante para criar unidade e organicidade. Conseguimos planejar encontros e definir temas estratégicos, sempre na perspectiva de melhorar a incidência política da Rede nas regiões”, afirmou. A avaliação de Jaime é de que o Conselho já começa a conferir mais densidade política aos encaminhamentos da coordenação, fortalecendo a Rede como um todo.
Vice-coordenadora da Rede Cerrado, Lucely Pio define a criação do Conselho como a realização de um sonho coletivo. Para ela, o CP terá papel estratégico ao apoiar a coordenação na construção de parcerias e no fortalecimento da secretaria executiva. “É uma soma que vem para fazer o trabalho fluir melhor, levando diretrizes para dentro das comunidades com representantes de cada estado”, disse. Lucely defende que o Conselho também ajude a pautar candidatos e gestores públicos sobre a importância do desmatamento zero e da manutenção do Cerrado em pé, além de proteger práticas, saberes e a base alimentar que o bioma sustenta.

A conselheira Irene Maria, integrante do Instituto Brasil Central (IBRACE) e participante da fundação da Rede Cerrado, reconhece que chegou ao encontro sem grandes expectativas. Saiu diferente. “Saio com esperança de que o Conselho dê um bom impulso à Rede”, afirmou. Para ela, o momento exige reconexão com as bases e maior participação da juventude. “Movimento se faz com o povo. Precisamos rearticular nossas entidades e enfrentar a ausência de políticas públicas no Cerrado, que hoje vive um cenário devastador.” Irene também chama atenção para a desigual visibilidade entre biomas. “A Amazônia é mais lembrada, enquanto o Cerrado sofre com o avanço da fronteira agrícola e do agronegócio, muitas vezes contra os interesses dos nossos povos.”

Também um dos idealizadores e fundadores da Rede Cerrado, Altair de Souza, agricultor familiar assentado da reforma agrária no Assentamento Andalucia (MS) e integrante do Centro de Produção, Pesquisa e Capacitação do Cerrado (CEPPEC), relembra que a defesa do Cerrado em pé é pauta histórica desde a década de 1990. Para ele, o período pós-pandemia enfraqueceu a dinâmica das comunidades, e o Conselho representa uma ferramenta de retomada. “É trazer a cara da representatividade do meu estado e município para dentro da Rede, para que as bases se sintam contempladas nas discussões.”
Altair destaca a importância de que as comunidades se apropriem das leis e dos instrumentos políticos existentes. “Saio estimulado a voltar para minha base e repassar o que discutimos. Se as comunidades se fortalecem, a Rede também se fortalece.” Em mensagem à juventude, ele foi direto: é preciso que as novas gerações compreendam o que está em jogo na crise climática. “Água, terra, segurança alimentar e hídrica dependem disso. Minha geração está passando o bastão. A juventude precisa para garantir o futuro.”
Representante da Central do Cerrado no Conselho, Mayk Arruda definiu o CP como “um ato de resistência e confirmação do modo de trabalho coletivo”. Para ele, a nova instância amplia a capacidade da Rede de qualificar pautas, organizar demandas ao poder público e fortalecer a incidência política nos territórios. “É um passo estratégico para o movimento de luta pela conservação do Cerrado e pelos direitos de seus povos.”

O encontro também consolidou prioridades para os próximos anos, como o fortalecimento dos núcleos regionais, a ampliação da participação nas bases, a defesa dos produtos da sociobiodiversidade e a articulação em espaços estratégicos, como feiras e agendas legislativas. O Conselho Político se apresenta como instrumento de reorganização e projeção.
Num cenário de crise climática e avanço do desmatamento, a mensagem que ecoou ao final dos dois dias foi clara: fortalecer as comunidades é fortalecer o Cerrado. E fortalecer o Cerrado é uma tarefa coletiva, que ultrapassa fronteiras regionais e dialoga com o país e o mundo.




