Atividade promovida pela Rede Cerrado no FAMA 2018 traz denúncia, experiências de luta e conservação da água de povos e comunidades tradicionais; além disso, atividade propôs alianças com a Academia

 

Das 412 fontes de água que ficam na região de Turmalina, em Minas Gerais, 368 já secaram. Quem traz os dados é Clebson Souza, filho de lavradores, da comunidade do Degredo, no Vale do Jequitinhonha, conhecido nacionalmente pela pobreza e pela seca. Técnico em Meio Ambiente do Centro de Agricultura Alternativa Vicente Nica (CAV), Clebson relata que 89% das fontes da região já estão secas. Foi a partir da década de 1980, com a chegada das grandes plantações de eucalipto, que as fontes começaram a morrer. “Uma área extensiva da mata e do Cerrado foi derrubada. As nascentes que não estão secas estão poluídas”, ressaltou Clebson.

 

Ele foi um dos palestrantes da atividade "Cerrado e seus povos: conservando água e garantindo vidas", promovida, nesse domingo (18), pela Rede Cerrado, durante o Fórum Alternativo Mundial da Água (FAMA) 2018. Clebson e Mônica Nogueira, professora da FUP/Unb (Universidade de Brasília), coordenadora do Mestrado em Sustentabilidade junto aos Povos e Terras Tradicionais (MESPT) e ex-coordenadora da Rede Cerrado, compartilharam com cerca de 30 participantes do evento experiências de luta e conservação da água garantidas pelos povos e comunidades tradicionais do Cerrado.

 

Além do extermínio das fontes de água causado pelo avanço do capital no Vale do Jequitinhonha com a entrada da monocultura do eucalipto, a região ainda sofre com os impactos da produção exploratória do carvão, especialmente para o abastecimento de siderúrgicas. As comunidades que lá vivem padecem com doenças respiratórias. “Há um alto crescimento do índice de câncer nas nossas comunidades. A suspeita é que o uso de agrotóxicos possa estar causando esse mal”, destacou Clebson.

 

Povos e comunidades tradicionais do Cerrado resistem e conservam nascentes


Em contrapartida a essa dura realidade do Vale do Jequitinhonha, o CAV vem promovendo ações junto às famílias camponesas e comunidades tradicionais, com atuação em 42 municípios da região. Planejamento do uso do solo e da água, captação e desenvolvimento de tecnologias sociais, como o uso de cisternas de placa, renovações de nascestes e a construção de “barraginhas” para assegurar a produção de hortaliças e o reabastecimento de água nas pequenas propriedades, são algumas das estratégias desenvolvidas por essas comunidades.

 

Além disso, o Centro de Agricultura Alternativa Vicente Nica, em parceria com o Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), desenvolve projetos no Alto do Jequitinhonha com cerca de 250 famílias. “São ações que asseguram a captação de água, a realização de mutirões, mobilizações populares e incentivos ao gerenciamento da própria população para iniciativas que evitem a seca na região”, explicou.

 

Cerrado, o berço das águas


Presente em onze estados do Brasil (Minas Gerais, Goiás, Tocantins, Bahia, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Piauí, São Paulo, Paraná, Rondônia) e no Distrito Federal, o Cerrado ocupa ¼ de todo o território brasileiro. O bioma acolhe, ainda, três dos principais aquíferos do país: Bambuí, Urucaia e Guarani. Quem salientou a importância do Cerrado na interdependência dos biomas na defesa dos territórios foi Mônica Nogueira. Ela lembrou que no debate da conservação dos biomas “o Cerrado tem posição marginal e serve como moeda de troca”. Para Mônica, é preciso destacar o papel do Cerrado na manutenção dos ecossistemas.

 

Mesmo assim, a devastação do Cerrado já chega a 52% do território (em proporção, maior que o desmatamento da Amazônia), em grande parte causada pelo avanço indiscriminado da fronteira agrícola para a produção da soja, o cultivo de eucalipto e a pecuária bovina, principalmente. A destruição da vegetação do Cerrado também causa a eliminação dos mananciais.

 

Neste sentido, a Campanha Nacional Sem Cerrado, Sem Água, Sem Vida, promovida por mais de 50 organizações, entidades e movimentos sociais, alerta a sociedade para os impactos que a destruição do Cerrado causam no Brasil. 

 

Integração entre povos e Academia


Mônica Nogueira ainda relatou a rica experiência da MESPT que, em sete anos de atuação, criou quatro turmas e formou 52 mestres em Sustentabilidade junto aos Povos e Terras Tradicionais. “Se a universidade tem sujeitos que vem de comunidades é possível fazer uma formação pelo e para o diálogo, por meio de laços de afetividade, pesquisas e inquietudes”, destacou a coordenadora dizendo que esses processos de diálogos são importantes para colocar em questão os sistemas convencionais de conhecimento “para gerar novas respostas que combinem conhecimento técnico com o tradicional”.

 

Para Kátia Favilla, secretaria-executiva da Rede Cerrado, é importante garantir a integração entre as comunidades tradicionais do Cerrado com a Academia. “É preciso incentivar o aumento do número de representantes dos povos e comunidades tradicionais entre os estudantes universitários e também incentivar pesquisas que sejam implicadas e construídas em parcerias com as comunidades do Cerrado”.

 

Rede Cerrado ganha força na luta em defesa do bioma e dos seus povos


Ainda durante o encontro, Kátia lembrou que a Rede Cerrado iniciou uma nova fase em 2018. Com a composição de uma secretaria executiva, a Rede conta com um reforço na motivação e na articulação de ações de mobilização, na luta pela preservação do bioma e em defesa dos povos e comunidades tradicionais do Cerrado.  


Dois projetos subsidiarão as atividades da Rede Cerrado até o ano de 2019: o Projeto de Apoio para o Fortalecimento Institucional da Rede Cerrado, com recursos do Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos (CEPF, na sigla em inglês para Critical Ecosystem Partnership Fund), e o projeto junto ao Programa DGM/FIP (Dedicated Grant Mechanism for Indigenous People and Local Communities - Fundo de Investimento Florestal), do Banco Mundial.

 

Dentre as atividades previstas nos projetos está a Assembleia Geral da Rede Cerrado que será realizada em Brasília nos próximos dias 3 e 4 de maio. Além de reunir as entidades associadas à Rede, a assembleia será um espaço de debate para novas estratégias de atuação da Rede.

 

A atividade autogestionada promovida no FAMA 2018 foi coordenada pela Rede Cerrado e contou com a parceria do Instituto Sociedade População e Natureza (ISPN); do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB); da Associação Regional das Mulheres Trabalhadoras Rurais do Bico do Papagaio (Asmubip); do Centro de Agricultura Alternativa Vicente Nica (CAV); do Mestrado em Sustentabilidade junto aos Povos e Terras Tradicionais (MESPT/UnB); e do Instituto Brasil Central (Ibrace). E com o apoio do DGM/Brasil e do Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos (CEPF, na sigla em inglês para Critical Ecosystem Partnership Fund).

 

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